De Alberto Caieiro, "em Pessoa":

"Pensar incomoda como andar na chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais"

16/12/2011

NENHUMA DIFERENÇA???

Em virtude do episódio parcialmente divulgado pela imprensa, da publicação do livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., vejo mais uma vez pessoas afirmando que não há diferença entre o PSDB e o PT.

Ora!! Isso me irrita e incomoda profundamente!! As diferenças são evidentes, saltam aos olhos. Tal afirmação é típica do cego-que-não-quer-ver! Posso rapidamente listá-las para pontuá-las aos incautos e aos radicais:

1 – A sigla PSDB tem 4 letras -   a sigla PT tem duas;
2 – Apesar de terem, na sigla, a letra “P” de Partido em comum, o complemento de um é da Social-Democracia Brasileira - no de outro é dos Trabalhadores;
3 – Em um, predominam as cores azul, amarela e branca - no outro, a vermelha  e a branca;
4 – O símbolo de um é o animal tucano -  de outro, uma estrela estilizada;
5 – Um atualmente é oposição e já foi governo, na esfera federal – o outro, na mesma esfera, é governo e já foi oposição;
6 – Um recebe mais apoio do empresariado financeiro e da grande imprensa, e um pouco menos de outros setores empresariais – o outro recebe mais apoio do empresariado industrial  e de publicidade, e um pouco menos de outros setores empresariais;
7 – Um aprofundou o know-how da “governabilidade” fisiológica e a praticou -  o outro só praticou, porque o know-how já existia;
8 – O principal líder de um é FHC, Fernando Henrique Cardoso – do outro, é Lula, Luís Inácio da Silva.
9 – O grande aliado de um era o PFL – do outro, o PSB (não vai ninguém me encher com PMDB, né? Alguma semelhança eles tinham que ter!)

´Taí!!! Rapidamente, listei nove diferenças claras e evidentes entre os dois partidos! Como pode algum cidadão ainda ter a audácia de afirmar que "é tudo a mesma coisa"? Que não tem diferença? Que é "cara de um, focinho do outro"? Isso não é justo!!

Agora falando sério, existem realmente muitas semelhanças entre as duas agremiações políticas – semelhanças, repito. A origem, num sentido mais lato, é a mesma. A sigla de um torno-se a vertente ideológica do outro. As atitudes radicais, ora na posição de governo ora na de oposição, se parecem. Mas existem também, evidentemente, diferenças programáticas e ideológicas que infelizmente ficam escondidas debaixo do tapete – junto com a sujeira! Não se valoriza a discussão do projeto de país de cada partido,  justamente porque ambos os grupos, no ilusório sonho de construir tais projetos (diferentes mas sempre servindo a mesma classe social), atuam na política com base no que pode haver de mais negativo e pernicioso na expressão “maquiavélico”, talvez exatamente porque não entendem com a necessária justeza etimológica tal expressão. E assim, cedem espaço ao fisiologismo e tornam-se culpados, no mínimo por conivência, pelo peculato, pela prevaricação, pela concussão e pela advocacia administrativa, nos mais altos padrões (e valores!!), tudo isso em nome da “governabilidade”.

Mas a ironia acima serve principalmente para os defensores ardorosos tanto do PSDB quanto do PT ou qualquer outro partido, que tratam e discutem política -  como disse meu amigo virtual Sidney Ferreira da Costa, sendo original dele ou não a ideia - do mesmo modo que tratam e discutem futebol; que tratam os partidos como se fossem times de futebol (e aí, não tem discussão, não tem argumento, não tem mudança de posição, não tem ouvir o contraditório!!!)

Principalmente para aqueles que ainda alimentam ilusões para com a democracia representativa,  certamente não é essa a maneira correta de construir; muito pelo contrário!! É este comportamento, de defender ardorosamente uma sigla e seus próceres, sem ponderação, reflexão e discussão, que geram a estagnação e provoca atitudes semelhantes, senão idênticas, de todos aqueles que ocupam o poder. As discussões têm que ser mais programáticas, pontuais, devem ser retomadas a cada novo assunto que entre na pauta política do país, e sem assumir imediatamente a posição do seu “partido de futebol”.

Pior que tudo, entretanto, é perceber que a grande imprensa brasileira, que detém naturalmente o privilégio da divulgação de ideias e pensamentos, quer escolher em nome dos brasileiros quem é que vai ocupar o poder para praticar ou permitir, enquanto governo, constantes crimes e ataques contra os reais interesses do povo - que se torna, cada vez mais, refém da própria ignorância.

11/12/2011

PORQUE EU ERA CONTRA A SEPARAÇÃO DO PARÁ

Já posso dizer que ERA contra, pois os paraenses, na proporção final aproximada de 67%, recusaram dividir ou retalhar o estado.

Sei que algumas pessoas apoiavam a divisão sustentando a opinião em argumentos válidos, que iam desde a distância do poder público, a diferença regional em termos econômicos e até mesmo culturais. Não vou me estender aqui no refutar destes argumentos - pois meu principal motivo de defender o Pará uno é outro -, mas o estado (o governo, seja lá em qual esfera for) tem teorica e historicamente uma missão, que abrange inclusive a administração das diferenças, perpassando suas tarefas básicas. É bem verdade que o estado capitalista liberal burguês, "democrático" ou não, na prática jamais vai funcionar assim, mas é por isso mesmo que o argumento é inválido: inútil como um,  incapaz como dois ou ineficaz dividido em três.

Tenho um argumento central, mas também podemos falar do quanto é equivocado aumentarmos o custo público com a divisão das atuais unidades federativas. Deveríamos, sim, é pensar no contrário, em unir pequenos estados tanto em população quanto em território, para efetivamente enxugar a máquina pública e disponibilizar recursos para necessidades reais da população, ainda que nos parâmetros do estado liberal burguês. Mas dizer qualquer coisa neste sentido, ponderando a dinâmica que adquirem determinadas discussões em nosso país, seria quase o mesmo que tentativa de suicídio! Só para não deixar passar em branco, nossa divisão federativa, especialmente no litoral Atlântico, está ainda fundamentada na divisão em capitanias hereditárias de 480 anos atrás, e os traços autônomos e regionais indiscutivelmente presentes devem-se muito mais ao controle da coroa portuguesa no tocante às comunicações e transportes entre as capitanias (depois províncias) com medo do contrabando e da divulgação do conhecimento, do medo de rebeliões e do risco de perda ou diminuição do seu poder. Mas, enfim... Continuaremos sustentando quase 3 dezenas de Assembleias Legislativas (com seus respectivos cargos e penduricalhos), 3 dezenas de secretariados (com seus respectivos cargos e penduricalhos), além de outros incontáveis departamentos e empresas públicas dividas por estados (com seus respectivos cargos e penduricalhos). Dividir para melhor corromper, dividir para mais onerar, dividir para melhor concentrar o poder.

Aí é que está a questão: dividir um estado em dois, três ou dez é multiplicar o potencial de desvio - posto que a possibilidade de controle e de fiscalização também se divide -, além de permitir que algumas famílias de poder local acentuem a prática do coronelismo moderno, mantendo até mesmo algumas das práticas do coronelismo das oligarquias rurais da Primeira República, o que hoje é possível pelo misto de ignorância e inocência a qual se submete ainda boa parte da população.

Não ao aumento inútil do gasto público.

Não à concentração do poder nas mãos de alguns privilegiados.

Não ao aumento dos corrompidos.

O NÃO para a divisão do Pará foi um NÃO para tudo isso, mesmo que as discussões entre os paraenses tenham corrido em outros termos, mesmo que não tenha sido este o objetivo do NÃO pela maioria dos paraenses.

Carajás e Tapajós o Barbalho!!!!!

04/12/2011

ADEUS AO MAIOR FUTEBOLISTA DE TODOS OS TEMPOS

Eu não falo simplesmente do brilho dentro de campo (e que ele tinha, gigantesco), não falo da capacidade de decidir (quantas vezes ele não foi decisivo?), do número de gols (uns 350 na carreira), de títulos ou de prêmios; é mais abrangente que isso. É sobre o ser humano que ele foi.

Mesmo sendo Pelé incontestavelmente o maior jogador de futebol de todos os tempos, e que ainda tantos outros possam ter jogado um melhor futebol, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira é o maior futebolista de todos os tempos. Porque, juntando o excepcional jogador que ele foi, o craque que só não brilhou mais porque sabia e defendia com unhas e dentes que a vida era muito mais que tal esporte, o craque que não se preocupava em ser um atleta na estreiteza do aspecto físico, é preciso ainda ponderar o excepcional homem que ele foi. Sabia e queria viver, na plenitude da condição de Homo sapiens sapiens. Cometeu seus abusos e erros, infelizmente, mas até isso serve para mostrar o ser humano completo e por isso complexo que ele foi. Com tudo isso junto, não tenho dúvida, podemos colocá-lo, num conceito mais abrangente, como o maior futebolista de todos os tempos.

Quando jovem, chegou a declarar que, entre futebol e medicina, ficaria com a medicina. Aquele que desenvolveu um jeito de jogar, uma marca registrada com seu calcanhar, para ganhar a massa, a torcida, para alegrar, divertir e fazer do futebol aquilo que acreditava o esporte ser: espetáculo. Um homem que, sem pecha, com transparência e clarividência, defendeu um papel mais positivo do futebol para os jovens,  pregando aos clubes não apenas a preocupação em formar atletas, mas também a de pensar em formar homens, cidadãos. Criticava aberta e duramente as grandes estrelas de futebol chamando-as de "crianças" que não sabem o que querem ou sequer o que é melhor para as próprias vidas, reféns de empresários, procuradores, assessores de imprensa, de imagem, disso e daquilo. Afinal, um cidadão, um homem, uma pessoa consciente, teria plenas condições de administrar a própria carreira, tocar a vida.
Sócrates, o Doutor, o gênio não simplesmente com a bola nos pés, mas gênio na vida, e que, maduro, adulto, transformado em completo, ia além de afirmar que ganhar não era a coisa mais importante no futebol: ganhar para ele simplesmente não era importante!

E como tudo começa? Começa num país refém de um sistema político que matou, torturou e "sumiu" com milhares, um regime que condenou o país à ignorância que ainda persiste, amarrando-nos à intolerância e ao extremo (por conta do extremo tamanho do autoritarismo, o fim do período militar nos fez mergulhar no extremo da pura libertinagem a nos consumir). Aí veio ele, com outros companheiros, dentro de um clube de futebol com milhões de adeptos, ensinando que as pessoas têm que ter autonomia, consciência, liberdade, participação, discussão, entender o compartilhamento de decisões, ganhar maturidade. Liderou, organizou e foi o maior expoente da Democracia Corintiana, o mais fantástico movimento no futebol mundial, indo muito além das quatro linhas do gramado. E mesmo assim, ele jogou demais! Um dos 100 maiores de todos os tempos. Não à toa, capitão de um dos maiores esquadrões formados no Brasil, a Seleção Brasileira da Copa do Mundo da Espanha, em 1982.

Foi a maior figura, dentro e fora de campo, de um dos maiores clubes do mundo.

Foi embora deste mesmo clube e do país  porque as eleições aqui continuariam indiretas, sem a participação do povo.

Sócrates se foi. Que dia triste, que dia sem graça, que dia cinza!

Sou absolutamente contrário aos "minutos de silêncio" que haverão hoje pelos estádios do Brasil afora. Afinal, sem Sócrates, o futebol infelizmente se tornou absoluta e definitivamente silencioso. Refém da mesmice, do que há de mais estúpido no senso comum e nas concepções fáceis da esmagadora maioria que há muito já se esqueceu qual é a essência da existência da prática esportiva.

O time no qual ele brilhou entra em campo, logo mais, com enorme chance de ser campeão brasileiro:  ainda que superando o rival, ainda que dando espetáculo, mesmo que seja uma goleada...

Haverá o que comemorar?

30/11/2011

ISSO AINDA EXISTE!!

Dois episódios, ontem, fizeram eu recordar que este sítio aqui existe!!!! Então, vamos lá, vamos publicar um a mais, na peneira cada vez mais difícil... Peneira que sempre me põem num sorriso, porque as leituras me trazem frequentemente as lembranças do mote da escrita. Essa foi resultado de um dia de premiação, quando recebi duas medalhas pelas quais não pude dar atenção, então roubada por uma presença, e depois um assomo de coragem interrompido no meio do caminho.
Tudo o que faz lembrar o que fui e, certamente, continua ingrediente do que hoje sou, embora as lembranças, felizmente, sejam apenas lembranças.

BALÍSTICA

Da procura que não faço resultam
duas mágoas, mas a culpa não se espelha
apenas na minha imagem
teus olhos também te acusam e tuas palavras
dissimulam o que guardas no canto mais recôndito
do teu coração.

A divisão que causas, nada sanável, em mim se apresenta.
Fecho os olhos e tento a sorte nos passos seguintes
escuridão não é o que encontro, mas sim ilusão
de que eu esbarre em outro alguém que te
ofusque e que apague definitivamente aquela que me
marca e me persegue e me atormenta desde há tanto tempo,
e me tornando um cofre de sentimentos prestes a explodir,
porque não há escape, alívio, descanso.

Até que estes passos incertos de olhos vendados façam
com que eu caia morto.
Todos pensarão ser teu o disparo, mas a
balística revelará que tua flecha negra foi
atirada com minhas próprias mãos.

11/11/2011

Homenageando um amigo...

Nos últimos dias, conversei nas redes sociais virtuais com um amigo das antigas, grande amigo, aliás, um dos que tenho muitas saudades. Discutimos acerca dos acontecimentos na USP e, embora não tenhamos discordado, certamente não convergimos o suficiente - muito embora também não tenhamos alongado a discussão. Pensei muito no meu amigo Tatu, nestes últimos dias, o que me levou a procurar o que vai abaixo. Coisa de vinte anos atrás, um dos textos que, à época, ele claramente demonstrou apreciar. Tem mais um que ainda estou à caça.
Ah, tanto minhas linhas quanto o "apreceio" dele são de adolescentes...

DESEJOS

Seus olhos, mesmos gelados,
já não me olham mais...

Suas mãos, ainda que crispadas, 
já não me tocam mais...

Suas lágrimas, sempre quase sempre secas,
já não caem mais por mim...

Sua voz, insistindo na indiferença,
já não repete mais meu nome...

Seu peito, cada vez mais compassado,
já não tem mais emoção...

Eu sei,
nada disso nunca aconteceu...
Mas, ainda assim, sua visão
ao menos me permite ilusão.


05/11/2011

Muito antiga, quase tudo tão atual...

SEM NOVIDADE

Assim se leva uma vida vazia,
procurando encontrar um tipo de alegria
que nos faça mais reticentes
com o que nos tornou incoerentes.

Sem ter a simples vontade de ser diferente,
caminhamos de encontro ao destino
enfrentando caminhos de puro desatino.

Mas resta sempre esperar uma novidade
que se acaba em cada novo passo;
retorno a encontrar infelicidade
insistindo em entender o que faço
de mim,
pobre, iludido,
esperando mudar-me com o tempo, enfim,
tão perdido.

Só em novos fracassos e decepções
percebo a mensagem das lições
aplicadas enquanto fujo da consciência:
pequenas porções de dor que mostram coerência
e assim farão com que o caminho não
indique a saída antes do fim da ilusão.

25/10/2011

Vencendo a preguiça

Não ia publicar nada, embora precise ACABAR COM AQUELA FOLHA!! 
Mas um ligeiro equívoco me fez vencer a preguiça e recolher um escrito que nem considero dos mais... Elogiáveis... Ou aceitáveis... Enfim. Foi no dia em que recebi uma ligação na qual me informaram a morte de um sujeito que eu achava que nos tinha muito a dizer, e conseguia. Era 11/10/1996


A UM POETA
O Sol brilha,
céu de brigadeiro.
O dia não chora, o dia
não sabe...

Uma asa quebrada a mais,
menos um voo no vão de minha percepção.

Outro homem que se foi,
pleno de coração.
Sabe-se lá onde está agora,
talvez na companhia daqueles que,
um dia,
foram dele os ídolos que ele foi.

Poucos restam...

Sua imortalidade será fogo-fátuo,
ressoar de sua voz
na emoção e também na razão
de alguns pobres jovens iludidos
por suas palavras. Sentimentais?
Passionais? Irônicas? Infelizes?
Não sei.

O pássaro cai, adeus!
Amanhã nascerão flores onde
as palavras semearam esperança.
O dia ou noite,
nos braços da mágoa de mais um
imortal poeta,
sacrificará a esperança de novas palavras
dizendo não ao sorriso ou
ao desespero de quem tanto aguardou.

23/10/2011

Acelerando.

Como esse é longo, fica só. Mais dois ou três dias, guardarei para eternidade aquela amarelada folha de caderno.
Longa e ruinzinha... Perdi o fio da meada em algum ponto.

Amanhã, sem sabermos, o
Núcleo da verdade científica
Tornará os homens menos
Ratos, cobaias do medo de sentir,
Ousarem serem diferentes do senso comum
Perdidamente obscurecendo a
Originalidade humana e sua
Libido, seu corpo, defasagem
Ou frigidez
Gestada durante um lapso
Impossível de um tempo que
Assume proporções
Fenomenais, idealizados
Ao sonho de deixar para lá,
Ganhar momentos
Ignorando mistérios
Alterando o sentido da vida.

22/10/2011

Mais acrósticos...

Vou fazer uma publicação a mais, hoje, justamente com o objetivo de acelerar o "fim" daquela folha... Mais uma vez, dois com origem distinta, mas que tento combinar aqui:

Omitindo a própria
Liberdade de viver.
Hiato absurdo, massacrante,
A mais estranha sensação:
Recolher o que se sente.

Torpor...
É assim que
Deixo o tempo passar.
Ignoro sua voz
Operando uma deliciosa insensatez.

Naquela folha...

... o verso da montoeira de palavras, onde há os acrósticos, sempre falei que tinha um texto. Segue abaixo. Preciso me livrar desta folha (no sentido de transcrever e poder esquecê-la). É sobre o impulso de escrever, sobre o impulso que tinha de escrever. 
Por isso, talvez, haja tanta coisa reunida daquela noite. Relendo (sei que não será mais meu em instantes, mas ainda assim fica comigo a maior possibilidade de entender plenamente o que está escrito) percebo que estava cansado da aparente futilidade daquilo. Daí adiante não chegou a ser um silêncio muito rigoroso, mas o ritmo da escrita - que já não era nem a ínfima parte da quantidade absurda, de 10 diários, como tinha sido um dia - reduziu-se drasticamente.

Dois passos mais, 
um devaneio.
Dois dedos com
uma esperança,
dois olhos sem 
ter direção.

Meu destino.

Elipse atemporal.
Deserto. Insensatez.
É vazio. É pouco denso.
Não tem para onde ir
nem onde ficar.

Suspende-se no espaço e na memória
e pouco importa o sentido. O
papel está pleno e denso.
Minha mão cansada. A pena
esgotada. E a mentira
sombreia a doce
vulgaridade de me deixar ser.

(Votos de silêncio)

17/10/2011

Quebrando a sequência.

O verso daquela folha ainda tem mais acrósticos, pelo menos uns 8, além de outro texto. Mas vou "pular". Esse, sem título, provavelmente já é dos tempos de professor, com a produção já muito mais escassa.

Eu queria ter um
belo presente,
que não fosse perfeito
mas que tivesse a força
de servir a todos.
Escolhido
com simplicidade,
fora do campo da ambição.


Eu queria ter um
belo presente,
que fosse diferente
e que tivesse o defeito
de não servir para possuir.
Oferecido
na verdade
dentro do espectro do coração.


Eu queria ter um
belo presente,
que fosse para toda gente
com antiga ou recente
vontade de sentir.
Construído
sem leviandade
permeando o caminho da gratidão.

Eu queria ter...
Eu queria ter
mas não o vejo.
Talvez porque
o obscuro desejo
de São Tomé
valha mais que um beijo,
que na verdade não é de se tomar,
de se manusear,
mas que talvez esteja
mais próximo do que eu perceba.

Eu queria ter,
mas não tenho...
Deixe estar,
o importante mesmo é ser,
e até começo a ver
aqui, comigo,
o que esperava,
e deixo o belo presente
para cada um de vocês.

15/10/2011

Tudo do verso...

... daquela folha de 96. Mais uma combinação de dois textos então distintos.

Parece piada,
Idiotice de uma lembrança
Apalermada, ignorada
Diante a falsa prepotente importância
A calar tantas outras vozes.

Mentiras superam
O senso da verdade
Roubam a essência,
Alteram o que não é tão simples
Lembram o que um dia já foi.

13/10/2011

NO VERSO DA MONTOEIRA DE ONTEM...

... Tinha um texto razoável e aquela série de acrósticos. Disso aí devo ter feito, sem exagero, milhares. Era hobby, vício, fazia com facilidade, inclusive para os alunos, nos primeiros anos como professor. Todos eles eram separados no verso daquela folha, sem "ligação direta"; mas vou colocar, aos poucos, alguns combinados. A ideia é interessante...

Frio escuro
Escondido no tempo
E ausente a razão,
Liberdade para sentir.


Suavidade
Ou rudez,
Foi assim que
Tentei entender.

Além disso, hoje incluo uma música gravada com o amigo Rogério Durante "solando" no violão. É o cara que, nas imagens da montagem, aparece com a guitarra.

12/10/2011

10 ANOS DEPOIS...

Se ontem coloquei um texto de 1986, hoje publico um de 1996. Segundo ano da faculdade, primeiro semestre, chegando consideravelmente atrasado numa aula de filosofia (tínhamos quase todo dia apenas uma aula de quase 4 horas). Meu atraso deveu-se a motivos profissionais, uma ameaça das inúmeras "viradas de noite" trabalhando. Estava cansado. De um lado, uma série de acrósticos mais um texto, razoáveis. Do outro, esse amontoado abaixo. Não tentem enxergar muita lógica...

Olha a paciência, o sinal, a coceira, o cansaço. Pare de falar ou comece do 0. 0 é o mesmo número que traduz a vontade que tenho de manter minha cabeça ocupada com uma tal de "inferner"do anes que não conheço da brochura que não tenho do "evidentemente" que só ouvi e do indivíduo genérico alucinado quando ouve por cinco minutos a mais desconexa explicação do mal do que fazem para que ele pare e ouça a voz da consciência e PARE PARE PARE com este capítulo com este versículo com este episódio com este trecho com Marx e esse outro alemão, feiobarque que eu não sei que diz que infinito e coisa e tal sou natural posso ser mudo mas não surdo ñ posso mais não posso + NÃO POSSO MAIS quero conforto só agora quero agora só conforto quero a mão perdida no perdido ponto da preta tinta da caneta sujando as mãos (as minhas não) meu dedo está limpo meu olho enche o saco meu braço está cansando o papel na metade a letra uma droga o barulho um messias barrabás cristo maomé grego perdido em roma querendo chegar em vasinguitoun e sem mais sem mais sem mais o que dizer eu não quero mais ver não quero mais saber não quero mais escrever mas escrevo p´r´o tempo passar mas meu relógio não andameurelógiotáquebrado meu joelho tá doendo tem gente pensando que eu tô anotando da aula mas eu ñ tô  EU TÔ CAGANDO E ANDANDO pra cair perdido no meio de um assunto que não sei do meio não dá hum hum o CACETE eu quero eu quero eu não ser o que quero pero no mucho that´s my way, brother of sister of ant Jane wife´s Tarzan? Inverti não sei responder não sei perguntar nãosei esperar não sei se vou continuar ou se vou chutar o saco de merda e se feder e se sujar e se cair e se lambuzar eu mijo em cima com pó de serragem e sopa de  tartaruga e carne de capivara e carne de paca e rãs e ovo frito e leite queinte e mão pra cima e mão pra baixo gastei e daí que se foda vá tomar no cú que eu quero sair vou sair depois do intervalo mas o intervalo não chega eipede porra nenhuma necessidade pra mim é banheiro WC privada bidê vai se foder vai aprender a lamber sabão e eu quero uma mão para parar porra podre puta pariu pelo menos AH HH HH lembrado estchutchura chulé doca DOCA Kpitau do inferno Karl MAX e MARX WEBER letras não são nada palavra é nada multiplicado parágrafo é nada potencializado página e nadainfinito e livro é pralea do nada cagada fedida cheirada parada o papel já era mas eu não quero parar não quero deixar cadê cadê mais o outro lado tem coisa os pezinhos da história os hominhos

11/10/2011

AMANHÃ É DIA DAS CRIANÇAS...

...Então, resgatei um texto de quando era criança. Vou copiar ipsis litteris do fac simile que tenho em mãos da redação solicitada pela professora de Língua Portuguesa Eli Bernadete Sabatini Petrella, escrita em meados de 1986, pelo aluno Sérgio Luiz do Prado, Nº 19 da 6ª "B" da EEPG "Prefeito Aldino Pinotti". A professora deu uma tremenda bronca no aluno, diante toda turma, afirmando peremptoriamente que o texto não poderia ter sido escrito por mim. Consequentemente, teve início uma "pequena" discussão...
Em tempo e adicionalmente, faço um comentário: era muito mais fácil e confortador acreditar naquilo que permeia o texto...

QUEM SOU EU?

Quem sou eu? Quem somos nós? Seres derivados de Deus? Destruidores de suas criações?
Somos verdadeiros carrascos da natureza, seres que não se respeitam, que destróem a si mesmos.
Somos de um mundo sensacional, que aos poucos destruímos e o deixamos pobre.
Meu espírito se lamenta, e em horas como essa, me dá uma desolação em que sou capas de me matar. O quê farei? Só serei feliz quando rever Deus e, para isso, preciso me esforçar para não fazer tantas coisas que faço, acabando comigo mesmo. Afinal, o mundo me fez assim, e não Deus. O mundo me desgasta, me deixa triste com as más notícias. Destróem a natureza, e essa revoltada retruca com terremotos, erupções vulcânicas e outras coisas do mesmo gênero. Acho que não sou nada, sou apenas um, entre todos, um milionésimo de poeira cósmica, diante d´outro universo que não conhecemos, ou seja, o resto de tudo que existe além de nós. Não acreditamos em nós. Nos julgamos os maiores, mas somos os menores. Acho que a vida hoje só nos destrói. A vida já foi boa. Mas e agora? Desvalorizamos o maior presente de Deus? O que sobrou deste magnífico presente? Ficou reduzido a uma simples bola, chutada todo tempo. Chegamos ao alge. Nós nos destruímos, e depois, destruímos tudo a nossa volta. Morremos, morri. Meu espírito está quase morto.
Descobri o que sou. Um abstrato, um derivado de Deus.

23/09/2011

O nome assusta...

... Mas não há nem havia qualquer razão para preocupação.

MATRICÍDIO

Caíam os olhos desfeitos em
mágoa.
Agitavam-se as mãos tensas,
puro medo.

Reconheci, na figura
melancólica de um órfão,
algo tão próximo do desamor
que tomou conta do meu espírito
naquela tarde inconsistente.

E, daquela figura,
me transfigurei;
transformei
minha dor num ombro
banhado de consolo.
Mais uma vez esqueci-me
das próprias dores
e mostrei o que sou.

O que sou?

20/09/2011

MARIA ANTONIETA E O MALANDRO - OBSERVATORIO DA IMPRENSA, ED. 660 - 20/09/2011


Já há alguns anos, vivo um problema: meu fígado não suporta mais leitura de “jornalões” ou “revistões”, tampouco a audiência às “radionas” (no feminino, pois trato das emissoras) reacionárias do meu brasilzão, quanto menos do que dizem ser “jornalismo” nas TVs. Isso me expõe ao constante risco da ignorância sobre os fatos cotidianos, no qual não mergulho porque, felizmente, parece que no mundo não há mais novidades. Então, meu amargor oriundo dos absurdos do que ainda ousam chamar de “imprensa” mantém relativamente sob controle.
Entretanto, é relativamente sob controle, uma vez que não passo incólume ao que a mídia em geral expõe, noticia e divulga. Afinal, vivo em sociedade e muitas vezes, quase sem querer, acabo lá contatando tais absurdos, perpassando alguns modismos ou alguns nomes da moda. Um destes aí, da tradição reacionária da mídia escrita brasileira, é Luiz Felipe Pondé, que escreve artigos na Folha de S.Paulo. Não bastasse tudo o que eu ouço falar, além de alguns excertos, uma colega professora já me “brindou” com três recortes de artigos desse senhor.
No primeiro deles, ele elogiou o livro de Leandro Narloch (o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil), dizendo que o mesmo se amparava em boa documentação e “notas bibliográficas fartas” – aliás, no que ele tem razão, mas esqueceu de observar que 9 em cada 10 referências do Guia... sirvam para sustentar as teses correntes, e não a irônica e quase fascista visão de Narloch; no segundo deles, chamou os manifestantes de Londres de “sem-iPad” – e eu concordaria com ele porque realmente os incidentes pareceram muito mais fruto da insatisfação por não se conseguir alguns confortos do modo de vida liberal burguês do que insatisfação com a situação em si; entretanto, é evidente que tamanho consumismo é fruto, sim, da dinâmica social que vivemos, o que ele nega, atribuindo culpa ao comportamento moral, ou à falta de moral dos indivíduos (calma, não pasmem ainda!).
A moral do malandro
Por fim, no terceiro deles, publicado recentemente (12/9/2011) sob o título “Marketing francês”, ele busca diminuir o valor histórico da Revolução Francesa tachando-a como mera experiência de “marketing político”. Isso tudo porque o “povo”, que ele trata tal como um falso axioma, foi “violento” e, vejamos, das revoluções burguesas, foi naquela lá da França que essa (para ele) misteriosa entidade chamada “povo” tomou parte efetivamente, sem meramente contemplar ou ser levado de arrasto. Como se não bastasse, ele critica a razão revolucionária oriunda do Iluminismo – essa não me surpreende, em virtude da sua tamanha religiosidade sem religião.
Por fim, citando uma única historiadora (o que, segundo seu conceito, permite considerar que seu artigo apresenta uma “farta” base bibliográfica), as revoluções burguesas britânica e estadunidense foram muito mais importantes “pra mim, pra você, pra nós” do que o Iluminismo e a Revolução Francesa. Entendo suas razões... Os dois movimentos foram elitistas, não com o “povo”, embora tenham precisado dele em alguma medida. E, é claro, ele não podia terminar seu artigo sem dar uma cutucadinha em Marx, a grande pedra no seu sapato.
Sinceramente, eu ri... Lembrei primeiro, da versão “O Malandro”, de Chico Buarque: o “povo”, e “violento”, paga o pato por todos os problemas do mundo, assim como o malandro pagou o pato só porque filou uma cachacinha; já o português, o atravessador, o alambique e os banqueiros são vítimas da “falta de moral” do malandro, então podem roubar, desviar, falsificar, sobretaxar etc. Assim como a elite burguesa francesa, que depois não “aguentou o tranco” e abaixou a cabeça para o córsego baixinho.
Postura político-ideológica
Depois, lembrei de Maria Antonieta, que sugeriu ao povo comer brioches na falta de pão. Ora, o “povo”...Sans-culottes? Provavelmente só se revoltaram porque não tinham recursos para adquirirem a pecinha do vestuário. Sans-culottes antes, “sem-iPad” hoje... Fome? Que fome, qual nada! Voto universal para quê? Certos estavam os protestantes ingleses que derrubaram o rei, enquanto o povo trabalhava. Ou a elite colonial que, até o Primeiro Congresso da Filadélfia, preferia manter os privilégios coloniais ao invés de uma independência que pudesse dividir o poder, ainda que mal e porcamente, com o “povo”.
Realmente, a Revolução Francesa é supervalorizada em relação às revoluções Puritana e Gloriosa e à Independência das 13 Colônias; mas há uma explicação clara e evidente para o fato, que não reside na participação do “povo” no movimento. O problema, que Pondé jamais poderá enxergar – tamanha sua passionalidade ideológica, que ele tanto nega –, é que o ideário liberal-burguês já nasceu com uma mentalidade como a dele, que tira do “povo” quase até mesmo o direito de existir.
É hora de uma série de articulistas, tão presentes e tão repercutidos na mídia, ao menos terem a coragem de manifestar transparentemente a postura político-ideológica que defendem. Ao público, é impossível continuar admitindo que tais “pensadores” arrotem independência, coerência, racionalidade, neutralidade e imparcialidade, quando o âmago das suas teses se alinha claramente com uma maneira de ver o mundo.

16/09/2011

Tomando cuidado...

O interregno já foi maior porque fica cada vez mais difícil selecionar algo que valha minimamente a pena e que eu já não tenha incluído aqui. 

Nada sairá dos nossos corações
enquanto cada raio de luz da razão não
fizer adormecer as nossas dúvidas.

Nada brotará em nossa sensibilidade
enquanto cada gota de lágrima do mundo
não fizer-se drama universal.

Tantas mãos
separadas por um vazio de motivos,
toda angústia
e mágoas viciadas em negação.

E a distância...
Eterna distância que apavora
e nos isola
e nos desola
e nos desune...
Pasmadoramente, desune e
faz com que as mãos, além de separadas,
crispem-se no desolável receio da compaixão.

07/09/2011

07 de setembro...

Já é tradicional que o 7 de setembro seja também um dia reservado para manifestações populares. Infelizmente, independente qual seja a manifestação, elas pouco são abordadas pela mídia em geral.
O texto que recolho hoje tem uma pequena relação com isso...

MALOGRADO

Com o peso do mundo nos ombros,
homens caminham e tentam sorrir
sozinhos
sabendo que cada qual é igual
ao amargor de não sentir-se impune.

Cada qual procura a eternidade
no soar dos doces passos,
mas eles se arrastam
se submetem
ignoram seus receios.

Cada qual encontra a verdade
dissimulando seu passado e
modificando estereótipos óbvios
que trazem à tona a essência
do viver
nada
caminho
ilusão.
É assim que esquecem-se de viver.

04/09/2011

E O TEMPO PASSA...

Sempre que posso usufruir de uma pausa para reflexão - e isso é cada vez mais raro - noto mais claramente o quanto mudo com o passar do tempo. Fico burilando aqui meus papéis, em enorme quantidade, alguns com temporalidade evidente, outros sobre os quais preciso parar, fazer um esforço de memória e de coração e tentar lembrar o que se passou. Prova dessa mudança com o tempo é o que está aí abaixo, tempos em que eu ainda acreditava em certos imperativos, crendo na absoluta necessidade de ver todos observando o horizonte com os mesmos anseios - em tudo aquilo que é global, para todos. Isso deve ter mudado há muito tempo, mas tamanha insatisfação com a indiferença, à época, num ambiente realmente diferente daquilo que eu era e esperava ser, árido demais enquanto eu, iludido, esperava ver semear e cultivar a busca da justiça, levava-me para uma busca de alívio, de atenuantes para o incômodo intelectual. Hoje, espero muito menos. E hoje, onde estou - ainda bem! - encontro muito mais, despeito de ocasionais gigantescas discordâncias.


TEREBENTINA


Aos poucos, Sol a Sol,
num ambiente seco -
talvez infrutífero -,
ignorado pelos criadores de
palavras fortes,
ávidos por sorte,
terminei como todos:
ignorantes, tolos, infantis
cuidando do sem fim para
amargurar um pouco mais de incompreensão.

E o que houve?

Cada vez mais,
há tolos, infantis, ignorantes
amargurando sua incapacidade
trabalhando em prol do vazio e
analisando o que há de triste em sobreviver.