De Alberto Caieiro, "em Pessoa":

"Pensar incomoda como andar na chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais"

07/09/2011

07 de setembro...

Já é tradicional que o 7 de setembro seja também um dia reservado para manifestações populares. Infelizmente, independente qual seja a manifestação, elas pouco são abordadas pela mídia em geral.
O texto que recolho hoje tem uma pequena relação com isso...

MALOGRADO

Com o peso do mundo nos ombros,
homens caminham e tentam sorrir
sozinhos
sabendo que cada qual é igual
ao amargor de não sentir-se impune.

Cada qual procura a eternidade
no soar dos doces passos,
mas eles se arrastam
se submetem
ignoram seus receios.

Cada qual encontra a verdade
dissimulando seu passado e
modificando estereótipos óbvios
que trazem à tona a essência
do viver
nada
caminho
ilusão.
É assim que esquecem-se de viver.

04/09/2011

E O TEMPO PASSA...

Sempre que posso usufruir de uma pausa para reflexão - e isso é cada vez mais raro - noto mais claramente o quanto mudo com o passar do tempo. Fico burilando aqui meus papéis, em enorme quantidade, alguns com temporalidade evidente, outros sobre os quais preciso parar, fazer um esforço de memória e de coração e tentar lembrar o que se passou. Prova dessa mudança com o tempo é o que está aí abaixo, tempos em que eu ainda acreditava em certos imperativos, crendo na absoluta necessidade de ver todos observando o horizonte com os mesmos anseios - em tudo aquilo que é global, para todos. Isso deve ter mudado há muito tempo, mas tamanha insatisfação com a indiferença, à época, num ambiente realmente diferente daquilo que eu era e esperava ser, árido demais enquanto eu, iludido, esperava ver semear e cultivar a busca da justiça, levava-me para uma busca de alívio, de atenuantes para o incômodo intelectual. Hoje, espero muito menos. E hoje, onde estou - ainda bem! - encontro muito mais, despeito de ocasionais gigantescas discordâncias.


TEREBENTINA


Aos poucos, Sol a Sol,
num ambiente seco -
talvez infrutífero -,
ignorado pelos criadores de
palavras fortes,
ávidos por sorte,
terminei como todos:
ignorantes, tolos, infantis
cuidando do sem fim para
amargurar um pouco mais de incompreensão.

E o que houve?

Cada vez mais,
há tolos, infantis, ignorantes
amargurando sua incapacidade
trabalhando em prol do vazio e
analisando o que há de triste em sobreviver.

02/09/2011

ESSA TEM UM FILTRO...

É que o original (e fica no original!) está em inglês. Escrito exatamente em November 18th, 1992 - Aula 29A (era a penúltima).

"Free theme"

 This life was dropped by me
trough the midnight shadows,
full-moon nights, when my subjectivism
takes care of my old notes.

Sky crossed by birds
their tails show us the magnitude from
plumes.
Plumes that create a little sense,
making me forget the destiny of my soul.

It condened by my acts
I must be in pain to recognize the truth
and to have right to go to the most
beautiful place.

The pavement of glory is
beside that man, encaged in his
own mind.
I set myself free from my heart
but now
I don´t know where I am.

Where am I?
In "the corner of some foreign field"
living these years with insanity
between the empty spaces inside myself?

01/09/2011

Olhos e sangue

Traz de uma frase vazia
o mais constante verbo.
Realiza, empobrecido da verdade,
a transformação indesejável do nada para
a flor mais estuporada e malcheirosa.

Seus olhos estarrecidos com a revelação do absurdo
memorizam o contemporizador instante
da estupidez ininigualável.
Treme, dança em papéis,
simula telepatia e, por um instante único
e distante do tumor,
carrasco e excrescendo do fim dos dias.

Sua mão esbranquiçada, falecida,
segura o que julga a última arma:
não há quem deseje voltar
a Lua não substitui o Sol
e o frio congela a esperança.

28/08/2011

A-SOCIAL

No vazio, limite da convivência
e bloqueio dos velhos anseios
é algo usual e perene aos
frutos da vida.
Sem lógica,
o mundo passa
oprimindo qualquer manifestação razoável de
esperança.
Uma pseudoestrutura amarga e cruel
denomina os fatores comuns de um negro futuro.

É um jogo comum
que hesito em praticar;
são olhares penetrantes invasores dos detalhes,
desconhecedores das escolhas,
iludidos pelo lugar-comum.

Sempre há um diferente, e se sou,
não foi essa a busca. Concorrência
de outrem, consequência das atitudes.

Sou assim. Não pela escolha de ser,
mas por onde pequenas escolhas me dirigiram.

24/08/2011

ATÉ O DIA EM QUE SEREMOS NINGUÉM

Só porque não posso mais
só porque não quero mais
só porque não sou mais eu
só porque não mais te vejo,
só porque esqueci quem fomos.
Só porque perdi o medo e ando, observo,
modifico e afirmo. Só porque sou eu.
Só porque aprendi a crescer, porque
amanhã não serei mais ninguém.

FIM CHEGANDO AO FIM

Com o olhar de quem nada contempla,
caminhava no deserto humano.
Sentia frio.
Minhas pernas pareciam máquinas,
movimento cíclico, ininterrompível.
Não podia notar o mundo, as
pessoas caminhando no sentido contrário,
ao meu lado outras, formas não simétricas,
absurdamente distintas.
Não havia objetivo, por isso insistia.
Mãos nos bolsos, cabeça erguida pela
ausência de vergonha. Ausência do medo,
nada de paixão, nenhuma busca,
completo recolhimento espiritual.
Pretensão não existia; era uma solidão
passiva, inconsciente. Solidão solitária.
Minha subjetividade contestada,
minha racionalidade ignorada.
Não reconhecia o som das palavras,
meu rosto fez perecer todas as formas de expressão.
O caminho era o caminho, como que se
o tudo a fazer já fosse o nada.
Vazio, meu corpo parou. Vivi intensamente
por mais um segundo.

Foi quando tudo ficou para trás...

20/08/2011

Pretensioso...

É mole querer homenagear John Winston Lennon? Eu tive essa pretensão... Tempos depois de me render e adotar The Beatles como a melhor coisa que o mundo da música popular já produziu, aceitando o rótulo de beatlemaníaco...

One more New Utopian (Lennon in memorian)

Os olhos estão cansados,
quase se fecham. Sua
têmpora lateja. Seu braço já
não sente mais o
silêncio da madrugada quebrado constantemente pelo
virar daquelas páginas envelhecidas que
refletem em sua alma como o agudo
fio do punhal. As palavras, embaralhadas
entre o sim e o não, comovem-no.
Sua utópica esperança o faz trabalhar.
Esqueceu seus poetas, seus amigos
de histórias das quais não participou.
Pensa nas crianças seminuas nas ruas
tremendo de frio e fome. No adolescente
fugindo do projétil, no órfão chorando,
já conhecendo o medo mesmo
em sua inocência.
Esgotado, ele para. Não, não desistiu.
É uma pausa para secar aquela cristalina
e tênue mágoa que seus olhos
cansados deixaram escapar
até o adorador do apanhador para sempre
vidrar sua janela d´alma.

HOJE ESTOU INSPIRADO!!

A musculatura da perna dói por causa do futebolzinho mas não há sono. Então tenho paciência para continuar meu garimpo. Também é aceitável, esta aqui de baixo. Do tempo em que só não tinha religião (garanto que é bem mais confortável que o ateísmo...)

Tornamos simples a vitória dos esquecidos
e esquecemos de vencer os eternos exilados
da paixão.

Pobremente eles fizeram-se mais fortes
julgando com excessos o que mais desconhecem.
E o excesso nunca sempre equivocado
avilta a beleza humana e a dignidade
estupefata da vida.

Agrada-me não estar abandonado nesta luta
mas todos sabem que não sou
forte o bastante para apenas admitir o óbvio:
estou constantemente rendido pela paixão.

Só não deixo de fazerem notar um fato:
o cansaço é o entorpecente
mais frequente
mais vicioso
mais cruel
mais nefasto
e o mais simples de ser debelado.

Venci aquele antigo vício de aceitar o
dia-a-dia!
Agora,
acompanho-o com ironia
sorrindo dos seus erros
e aguardando o exato instante de dar o bote.

19/08/2011

Proletariado, cara pálida???

Tempos de faculdade, ou lembranças da faculdade (acho que foi poucos anos depois...) Ou no boteco (num clube de bocha, da "terceira idade", a "Associação") ou num churrasco qualquer. Lembro lá eu porquê?, mas começamos uma discussão sobre a falência do "socialismo real". Saiu um texto no dia seguinte...
Lembrei porque vejo gente sentindo o odor de "revolução" no que aconteceu em Londres. Claro que é insatisfação, mas que foi canalizada para o vandalismo fútil e sem sentido, com serventia apenas para justificar o viés repressor. Pra falar a linguagem sectária e dogmática, quase engraçada, foi "insatisfação por não conseguir os pequenos luxos pequeno-burgueses que servem como canto da sereia capitalista". Na época, o que saiu foi isso.

Foi o
Sol no lado Leste
resultado prematuro.
Vítimas do perjúrio e
inglória glória vã,
ufanesca,
utópica e devanescente.

O
inimigo recrudesceu e
fechou mais suas garras.
Pior: como lição,
sequer a cegueira sectária.

Dos muros que caíram -
não era sem tempo! -
devia restar a esperança
a fé no humano
o pátio sólido e consistente
de um mundo menos cruel.

16/08/2011

ESSA JÁ ERA LEMBRANÇA!

Ao refletir sobre determinada época na qual, ao invés de viver, eu escrevia como era viver, senti-me enraivecido do absurdo daqueles dias, das tantas oportunidades que desperdicei, do quanto (e  quantas vezes!) disfarçadamente me ofereciam tanto e eu, tantas vezes percebendo, algumas não, abri mão. Então, decidi que ter vivido desta forma era completamente errado! Para demonstrar meu incômodo de tanto desperdício de vida trocada por uma compulsiva e exclusiva paixão pelas palavras... Escrevi!

Porque não dormem incólumes aos vícios d´alma
enquanto o poder da palavra entorpece a vida?

Porque despertam sempre tensas, prontas
a fazer perder o doce instante da poesia?

Porque, enquanto caminho tendo adormecido
rancorosas lembranças, vos levantam e vêm de pronto
derrubar a paz e a vulgaridade acariciante em que
ponho minha mente constantemente matizada?

Porque, além de tudo, vosso desfalecimento me comove
a ponto de tomá-las em meu colo e dar-lhes sanidade,
ordem,
em meio a desordem onde ordenam-se meus sentimentos?

Por quê?

Porque não suspendem a pseudoeterna hibernação
que quase sempre me convence da calmaria?
Por quê? Por quê? Se não sei, aguardo a chance!

Quando, um dia, meus atos estabelecerem grilhões
para vossas tão traiçoeiras fugas,
estarei pronto a amar devotamente
louvando e poetisando a vida,
mas com o cálido hálito humano.


14/08/2011

AS PAIXÕES...

Lembro qual foi, porque foi intensa. Claro, hoje não importa mais. Já eram dias de menos imaturidade, de falta de tempo, trabalho e escola intensos, já mais para sozinho nos trilhos da vida. A lembrança está aqui por causa das linhas que possibilitou-me produzir, cheia de "pessoísmos" (quem dera...)

Não me canso de escrever
os mais torpes versos,
na cadência de minha ignorância
e nas saudades dos teus olhos
que marejavam os meus,
dos teus braços que os meus
e aos meus
envolviam
do teu colo que me abrigava.

Sê a mim o anestésico das dores d´alma
agrada-me com a ferocidade da paixão;
não esqueças a inexorável dependência a
cada passo teu
que a tênue linha da vida em mim produz.

Não há luz, não há
sensação que apague
o que deixo de sentir quando
tua ausência notou-se em meu peito.
Não há vitória. Não há disputa
abdico a qualquer glória
se os frutos das vitórias
contigo não posso partilhar.

09/08/2011

BOBAGENS, BOBAGENS... BEBAGENS

Quando vou peneirar meus rabiscos, no meio de tanta bobagem e infantilidade, encontro algumas coisas pelo menos interessantes. O problema é que algumas são interessantes justamente porque vivia o tempo inteiro de modo equivocado. Mesmo assim, se por um lado "atrasei" minha vida, cresci e amadureci de uma vez tudo o que faltara até então...


SÃO-INSANA


Egoísmo da nação,
minha soberba,
até gargalho de indignação!

Corpo cansado perdido
sem tempo para pensar.
Melhor assim,
prefiro assim -
mentira -
não existe mais, por enquanto,
o risco da loucura.

O corpo dói,
que bom,
o corpo dói...
A cabeça dói,
isso não é bom,
a cabeça dói
e prejudica o meu pensar!

Tenho tempo para chorar, gritar
refletir dos sonhos e pesadelos
entregar todo relato de mãos limpas
eu posso tentar mudar.

Mas eu resisto tanto quanto meu corpo
espero de mim tanto quanto posso,
na ordem inversa do estado mental.
A dor não pode mais que
a dor de não poder mais.

Afogar a consciência,
sem ar,
sem estar no mar,
com o inconsciente dilatado
pelo medo de estar consciente.

07/08/2011

SEM SENTIDO, ALGUM SENTIDO...

São duas: uma, invenção e (falso??) neologismo, certamente teve algum sentido (esse é o resultado de abandonar o que se faz... Como é que vou lembrar???), a outra, direto no plexo, sempre será plena de sentido. Respectivamente...

SINAPISMO

Parece pouco provável
que queiras quantificar
muitos meios melífluos
de doar, dever, dividir
conquistas, corações, comoções
sentimentos, solidões, serenidade
e encantamentos estupidificados.

Vôos, visões, viagens
são sonhos superficiais
tenuemente transformados.

Todo esse jogo,
todo esse esquema,
não passa do dilutável desejo
de prosseguir... Em vão.


PÃO E ÁGUA

Somos nós quem deixamos o pão
acostumados ao não
de quem nos nega a ilusão
de um dia termos pão
negado
por quem nos nega a vida
e a morte
por quem nos cede migalhas
e a vida
não mais que sub vida
e a morte,
morte quem me dera ter
a vida
e a alma no meu corpo pobre
que mastiga restos do pão
negado
misturado a água suja e podre
de quem é tão podre e pobre
por ter tanto pão e a água,
de quem não nega o sim
e a vida.

03/08/2011

Antes do coma

A cura de um poeta
é uma injeção de vida:
uma ampola de amor carnal,
uma gota de maldade - meia de ignorância;
um cataplasma de contatos físicos,
uma pastilha de malícia,
uma cápsula de canalhice;
doses diárias de elixir de conhecimento da realidade e,
ao leite morno,
xarope de malandragem.

Doses calculadas,
ministradas com prescrição médica
adotadas para estes pacientes específicos,
para deixá-los
com a alma pronta para a lama do mundo.

31/07/2011

POLÍTICA

Fotografe o instante de
um sorriso aberto (hipócrita)
e verá que tudo não passa de um jogo,
jogo fértil,
com poucos vencedores,
e sempre
incontáveis perdedores.

Terá a prova, para as futuras gerações
que o futuro é uma linha cheia
de repetições do passado,
passado,
que se liga com os dias posteriores
na linha cheia de pontos brancos
e interrupções
e saltos
que fazem do presente
irrealidade e mescla de mentiras.

E noutros dias,
depois de curtos anos,
tudo começa de novo...
E a fotografia do sorriso falso
para sempre sabe, soa, parece
atual.
Tanto quanto a rotina de cada um,
a escolha de cada um,
o erro de cada um.

Tudo sempre assim, porque
assim é melhor,
o que mais convém.
O que não há porquê mudar.

29/07/2011

LINEAR

Ela veio!,
balançou os sonhos com a luz dos
seus cabelos que brilhavam e meus olhos
refratavam seu rosto para
dentro de mim.

Ela veio!,
trouxe minhas próprias palavras,
eu as tinha perdido;
as palavras refletiram quem sou
para quem ela era.

Ela veio!,
seu corpo esguio dançou meu canto
e sua doce voz traduziu meu sentimento.
O silêncio, palavra da fé,
refletiu semelhança ao amor.

Ela veio!,
eu estava ausente.
Ela estava ausente,
refletiu uma visão baça e nua
dos dias que jamais recuperei.


Fez muito sucesso entre aquelas que leram. Azar o meu que, em tempos de platonismo puro, quem tinha que gostar... Nem viu!

22/07/2011

Ainda vale a pena...

Ser professor de escola pública não é fácil. E a interpretação das pessoas sobre tal dificuldade, em geral, é muito simplista - inclusive por parte de muitos professores.
Eu sou um sujeito que tem verdadeira satisfação em retirar toda caixa de filtro de ar de um carro, lambuzar a mão de poeira e graxa, sofrer no escuro para desparafusar uma buzina, desmontá-la, limpar seus contatos, colocar tudo de novo no lugar e, no final... Vê-la voltar a funcionar! É a satisfação pelo resultado. Uma gloríola, admito. Muito pessoal e individual, inclusive. E é justamente isso que falta no trabalho de professor, pelo menos para mim: ver concretamente um resultado. Acredito que fazemos, em maior ou menor grau, um papel positivo para os alunos. Entretanto, são resultados que dificilmente podemos enxergar, porque eles aparecem quando os alunos não estão mais conosco.
Os resultados mais imediatos, os que cada um de nós gostaria de ver exatamente naqueles conteúdos, temas ou assuntos que trabalhamos, quase nunca acontecem. É por isso que tenho que agradecer minha aluna Larissa Stephany, da oitava série, pela disposição e interesse em ir além de pesquisar, escrever e apresentar o trabalho que solicitei, construindo o vídeo que vai abaixo...

Larissa, um beijo e obrigado pela singela lufada de esperança.

21/07/2011

DO FUTEBOL PARA A VIDA...

Sempre me considerei um apaixonado pelo futebol. Durante tanto tempo - a maior parte do tempo da minha vida - o vi como uma atividade deliciosa para quem a pratica, acompanha, comenta, torce, trabalha, irradia, analisa, etc.

Mas ultimamente tenho uma conclusão um tanto mais psicológica para o gosto que eu (e creio que muitas outras pessoas) tenho pelo esporte, que tem a ver com o que ele tem lúdico, do tanto que "brinquei" de futebol quando criança, dos times de futebol de botão que ainda guardo, de por causa dele (eu, muito pouco) ter vivido aventuras, conhecido gente diferente, enfim, de tanto ter me divertido nos anos em que, puro e inocente, via na televisão, nas fotos, nas revistas, tantos "marmanjos" também brincando e se divertindo com o esporte bretão.

O problema é que, conforme o tempo passa, na verdade felizmente, grosseiramente infelizmente, vai-se tomando tento do que há por trás das cortinas: falta de caráter generalizada, negociatas obscuras, malcheirosa promiscuidade com o poder público, montanhas de dinheiro, mentiras, etc., etc., etc.

Nestas duas últimas semanas, dois fatos do futebol chamaram extremamente minha atenção: a tentativa (efetiva, mesmo, será??) do Corinthians, o time pelo qual ainda insisto torcer, de contratar o argentino Carlos Alberto Martínez, vulgo Carlos Tevez, de 27 anos, pela módica quantia de 60 milhões de dólares. Ou seja, o clube brasileiro iria pagar 3 vezes mais para contratar o mesmo jogador que contratara no final de 2004 / início de 2005, então com quase 21 anos. Mais que isso: contrataria novamente o jogador pelo qual pagou mais de 20 milhões de dólares, fora salários e premiações por ano e meio, e que perdeu sem ver um centavo sequer. O time queria recontratar o jogador que saiu do clube como se fosse um proscrito, que "fugiu" na calada da noite sem dar satisfação, que abandonou o clube e, pior, seus companheiros de equipe, sem dar maiores satisfações e sem qualquer tipo de prevenção.

O outro fato envolve também a torcida, desta vez do Palmeiras, que ontem aplaudiu, ovacionou e berrou a plenos pulmões o nome do atacante Kleber quando sua escalação para a partida contra o Flamengo foi confirmada. Neste caso, é mais flagrante a postura de caráter duvidoso do atacante, que ficou quase três semanas envolvido numa suposta transferência justamente para o Flamengo. O atacante chamou o vice-presidente do clube, em entrevista pública, de mentiroso e mau-caráter, e não se pode esquecer que, há poucos meses, queixou-se de que não tinha apoio do treinador. Este é o mesmo Kléber que comemorava gols do Palmeiras e visitava as "torcidas" organizadas do clube enquanto era atleta do Cruzeiro, numa clara "forçação de barra", até que finalmente conseguiu sua transferência.

O angustiante, nos dois casos, é o apoio da sociedade, ou pelo menos pela maioria da parcela da sociedade atraída pelo futebol, aos atletas. Ficam evidenciados os valores que vêm sendo cultivados no mundo contemporânea, quais posturas pessoais são tidas como elogiáveis e corretas, sempre partindo de um ponto de vista abissalmente individualista; então, a partir do futebol e pela gigantesca, incomensurável e incomparável repercussão do esporte, podemos observar qual é o grau de adoecimento da nossa sociedade. E, do futebol, podemos extrair ainda um sem número de outros (maus) exemplos: a inocente e incoerente suposição de que os jogadores podem ter um comportamento dentro de campo e outro distinto na vida cotidiana (como se o caráter pudesse se dividir em dois), como se desperdiçam milhões e milhões no absurdo de organizar partidas de futebol  ("espetáculos") a um custo irreal, não compatível com as demandas sociais (gerais, não específicas, não estou falando de "fome" ou "miséria" simplesmente, mas de forma muito mais abrangente), das negociatas escusas e não-explicadas (porque não têm explicação e porque delas não se cobram explicações), do enriquecimento mais que suspeito de todos aqueles que se envolvem com o esporte, além de tantas suspeitas que não consegue-se afastar, de manipulação de resultados, de fraudes, de lavagem de dinheiro, de jornalistas e comentaristas divulgando e comentando conforme o seu "rabo-preso" com este ou aquele empresário ou com este ou aquele jogador...

Que é isso? O que se tornou tal esporte? Aliás, teria deixado o futebol de ser esporte? Virou pura e simplesmente "negócio"? É para isso tudo que se pregou e ainda se prega a tal "profissionalização"? Com tal objetivo deixou-se de "amar" a atividade, afastou-se o "amadorismo"? Não será este o palco onde, repito, exibe-se o grau de adoecimento e de apodrecimento de nossa sociedade? O que esperar? O que sentir quando se vê tantos meninos e, hoje, não poucas meninas, com o sonho de se tornarem "jogadores de futebol"? Como alguém em são consciência de tudo o que acontece neste "esporte" pode incentivar uma criança a entrar nessa? Por que o país (ou UM país, seja ele qual for) aceita organizar um evento como a Copa do Mundo submetendo-se a prática de privilégios grosseiros, escancarados e inaceitáveis a uma entidade e a "meia-dúzia" de empresas e empresários?

Não dá... A cada dia, fica mais difícil continuar "aceitando" o futebol ao mesmo tempo que se pensa o mundo. Tenho sérias desconfianças que minha parcela "criança" não resistirá a tamanha sujeira.
Queria eu ver apenas mais uns dois ou três pessoas que repercutissem como o Dr. Sócrates Brasileiro ponderando o futebol.
Pena que ele é um só...

19/07/2011

O que será...

...  que aconteceu de tão grave quando expeli em tinta o que vai abaixo?? Sinceramente, não me recordo. Era do tempo em que marinava meu fígado em... Bem... E que chamavam a mim e outros três de os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Pelo conteúdo, dá p´ra notar que havia um alto grau de injustiça, né não?


TERMO DE COMPROMISSO

Concordo com as leis que fizeram nosso mundo
e abro mão da minha sinceridade.
Passarei a seguir os passos de quem sempre
procurou me guiar para o lado do qual mais me escondi
durante os anos da minha curta e experimentada vida.

Tudo isso pelo desânimo de procurar flores
e encontrar apenas pétalas dilaceradas,
procurar verdadeiras amizades
e encontrar dissimulação em tantos caráteres
procurar o deleite da alegria
e encontrar apenas medo, fuga
procurar um tanto de amor
e encontrar tanto ódio.

Assim,
ergo minha mão direita e me comprometo
a lhe ser fiel!
(Só não posso prometer mostrar contentamento...)
Pois o mundo que me cerca era um que fizeram
questão de destruir. Caminharei ao lado de quem
repelia, de quem me assustava e
de quem me magoou.

Simplesmente para acreditar nas palavras...
Ser feliz me conformando com a vida, com a vida,
com a vida como ela é e jamais soube ser para mim
o que de mim esperavam e o que para mim queria.
Não precisarei mais sorrir
e poderei, finalmente, fechar os olhos e dormir
sem nunca mais permitir que  o inconsciente brote
dos confins das memórias mais belas para me
atormentar com a preparada lâmina das saudades.

Eu prometo me conformar,
eu prometo obediência
e prometo não ser mais quem fui.
Mudando a maneira que sempre procurei para
semear felicidade, agora irei,
com minha infelicidade,
colher os sorrisos de todos os que serão enganados.

Que me perdoe qualquer outro plano metafísico!