De Alberto Caieiro, "em Pessoa":

"Pensar incomoda como andar na chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais"

19/10/2013

VINÍCIUS, MINHA ÓBVIA HOMENAGEM...

Gosto demais do poeta Vinícius; e, a despeito de tantos outros que eu gosto muito mais pela temática, dele e de Drummond eu sabia dezenas "de cor", para recitar, mesmo. Hoje, a memória falha muito. Essa "pequenininha", aí, eu sabia inteira.
E, por oportuno, sempre gostei mais do poeta-de poema-poesia do que do poeta-musicista-letrista-de poesia. Mesmo que ele seja uma das poucas salvaguardas da ridícula bossa nova.

Entre "Filhos, filhos... Melhor não tê-los" e a de baixo, escolhi: a homenagem não podia ser mais óbvia...





O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO



Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas que lhe
Brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão.
Não sabia, por exemplo,
Que a casa de um homem é um templo,
Um templo sem religião.
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção compreender
Por que um tijolo
Valia mais que um pão?
Tijolos ele empilhava, com pá,
Cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia,
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão que sofreria se
Não fosse, eventualmente,
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa e
A coisa faz o operário.
De forma que, certo dia,
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
¾ garrafa, prato, facão ¾
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela, banco,
Enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela,
Casa, cidade, nação.
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão


Ó homens de pensamento,
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário soube
Naquele momento!
Naquela casa vazia, que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que  sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E, olhando bem para ela,
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela!

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
que, tal sua construção,
Cresceu ali também o operário
Cresceu alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão.
Pois, além do que sabia
¾ exercer a profissão ¾
O operário adquiriu
uma nova dimensão: a dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não
E aprendeu a notar  coisas
As quais não dava atenção:
Notou  que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja
Era o uísque do patrão
Que seu macacão
Era o terno do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram o carro do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão.

E o operário disse: não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas de delação
Começaram a dizer coisas nos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
¾ Convençam-no do contrário
Disse ele sobre o operário
E, ao dizer, sorria

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas, quando foi perguntado
O operário disse não.


Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram,
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num  momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez esta declaração:
¾ Dar-te-ei todo esse poder
    E a sua satisfação
    Porque a mim me foi entregue
    E dou-o a quem quiser.
    Dou-te tempo de lazer
    Dou-te tempo de mulher
    Portanto, tudo o que vês
    Será teu se me adorares
    E, ainda mais, se abandonares
    O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro via coisas, objetos, produtos, manufaturas
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse não.

¾  Loucura! ¾ gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
¾ Mentira! ¾ disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
como o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.

Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que o fizera
Em operário construído
O operário em construção.

17/10/2013

Hot hole - by Mario & Sergio

Deve ser 1994...
Escrito à quatro mãos. Eu e o Mario Giglio, irmão mesmo que não seja de sangue:


HOT HOLE

Fear in the darkness
she was pale
and I was naked
she was afraid
and I was excited
because she was nude too
and I've been alone for a long time . . .

What's the time?
Only regardless in the night
my sex open your world
to a wild way
and the minds thinking
at the first round
to fight by space . . .
The hot hole space . . .
Face to face.

And the hot hole
it's a fancy that came from the stars
we are only lost souls
wandering over the sea
trying to see
where's our space in the land
of the hot hole way.

What's the way?
running over the clouds
after the tug of dreams
I listen whispers in the air
shining shadows in my vision
and the superman says: "Goodbye",
I'm a fool guy.

While bells, sirens, atoms,
desire of vomit and other absurds
have made my head
your body was invaded by me
carrying cramps to your entrails
immobilising the perverted being
existing inside you.

Who're you?
Numberless puppet in the Universe
blackmail of my erection
hermit in your lilac castle
looking for a volcano in eruption
that so inactive, is covered by leafs.
Desist you!
Prop your ear in a gramophone
and hear the clean creaking noise
Don't dare to idolise.

If the old idol can't make a beauty space
you have just to share your tears
with the kidnapper of meaning
taking thoughtlessness of the risin' joker leader
that no one take care . . .
Ironical words
ironically changing the world.

What's the world?
A piece of happiness forming a statue,
unfruitful monument,
building castles in the air
stoned
drunk
waiting for the moon
that won't come back so soon.

Your finger touch the water
but you can't feel the frigid feeling
that one day left you in the lightly room
but alone
without reason to carry on,
carry on, with a little rest of hope.

Who's the hope?
It's a teeth in a toothless mouth
(like hens, so bitch, so hens)
or the life in the heaven
(all are died! The souls are here!)
Alive is a nankeen ghost
Walking maliciously in my mind
Nic, Pat and Esqualidus
and the barbecue over the granite stone
poor head, "Erectus Falus"
Big Black Cloud cacique
Playing the "rain dance".




14/10/2013

MANHÃ

Escrito na primeira metade da década de 1990. Arriscaria 1994. Mas, sei lá... Dei uma "revisitada"...

MANHÃ
Acordei, olhei no espelho e não gostei do que vi. Era o mau humor, claro, como de costume nas manhãs. Mas fiquei nesta ocasião irritadíssimo com as formas irregulares, o cabelo despenteado, o resultado horrível.
Como sempre: escovei  os dentes, lavei o rosto, olhei a incipiente barba - não, não fiz, não raspei, não cortei, não compensava, enfim -, fui para o quarto e me vesti para sair. Enquanto preparava o café, vi meu reflexo  na tampa do fogão e foi a gota d´água: observei uma faca sobre a pia; tomei- nas mãos... Sorri... E corri... para o banheiro!
Talhei o rosto com toda delicadeza: cortei fora boa parte do nariz, furei um dos olhos, decepei completamente uma das orelhas. Ainda insatisfeito, cavei um buraco no queixo, tirei uma espessa fatia do lábio inferior, tirei a ponta da língua. Ah, estava melhor!! Mas ainda não me sentia à perfeição... Peguei o barbeador elétrico e lentamente o corri pela cabeça: e cabelo desabava no chão. Abri uma trilha bem no centro e pelei toda a parte de trás. Busquei uma tesoura e comecei a cortar mechas dos lados. Não esqueci, claro, de tirar as sobrancelhas!
Olhei no espelho e sorri: bom! Parecia bem melhor. Já não era mais aquele rosto feio, desanimado e sem graça de todos os dias, aquela carinha que dava motivo para brincadeirinhas e piadinhas. Ou... Comum? Não sei. Mas, agora, era grotesco. Era medonho. Quem me encarasse, arriscaria-se ao medo. Melhor assim. Insociável, sim!
Fui ao trabalho, porém voltei mais cedo para casa. Estranhamente pensaram que eu sofrera algum acidente ou qualquer coisa parecida. "Deram-me" o dia. À noite, na faculdade, fui gentilmente retirado da sala. Depois, brutamente expulso do prédio.
Insisti em trabalhar no dia seguinte, mais uma vez me mandaram para casa. Passaram-se alguns dias até que, por fim, sem maiores explicações, fui demitido. Absurdamente, não permitiram mais que eu entrasse no campus da universidade. Arbitrariedade...
Dias passaram: comecei a passar todo o tempo em casa. Lia e relia os poucos livros que tinha, reproduzia incessantemente os mesmos discos, dormia em qualquer horário, pouco comia. Sem qualquer preocupação com qualquer coisa, fui deixando a casa à vontade; inevitavelmente, a sujeira foi tomando conta. Realmente não varria o chão, não lavava o que usava, o banheiro foi se emporcalhando, o quarto embolorando, sem iluminação ou ventilação. Deixei para lá o banho e nem mudava mais de roupa.
Semanas passaram: o  ambiente ao redor da casa foi se tornando pouco salubre. Há dias começara atrair cachorros, gatos, ratos, aranhas, baratas e quetais. Para mim, indiferença. Para a vizinhança...
Logo, chamaram um órgão qualquer zelador da saúde pública. Fui atormentado dias seguidos. Retirado do meu doce torpor e da minha reconfortante indiferença. Dias e dias seguidos, algum funcionariozinho da prefeitura batia na minha porta. 
Cansei.
Sai de casa. Andei feito vagabundo andarilho pelas ruas por alguns dias. Saí da cidade. Peguei a estrada. Finalmente, encontrei um lugar distante, deserto e calmo.
Fiz qualquer tapera para passar as noites. Na verdade, morava ali. Dormia quase todo o tempo, levantava-me apenas para raramente procurar comida, e para beber água num fio corrente das proximidades. Felizmente, já não lembrava como soava minha voz e, principalmente, de como era meu rosto (ou meu novo rosto).
Meses passaram: eu por ali, até  que  caminhando para um pouco mais distante em busca do quê de comer vi  meu  reflexo num límpido córrego. Observei um rosto normal, até... Bonito? Ah, sim... Comum... Uma cabeleira abundante até bela, apesar de suja.
Sorri. Vi todos os dentes (ah, esquecera dos dentes!!!!)
Banhei-me ali mesmo. Lavei  como pude os trapos que me cobriam, esperei que eles secassem. Uma noite a mais, depois rumei de volta para casa. Fiz uma consistente faxina. Expulsei os gatos, pus ratos para correr, assustei baratas, despachei quase todos os cachorros, cortei as ervas do minúsculo jardim, reguei as quase inexistentes plantas. Tomei outro banho, fiz a barba, lavei bem o cabelo depois, toscamente, o acertei, mesmo mantendo-o longo.
Dia seguinte, fui ao meu antigo emprego, revi o pessoal, o gerente me chamou, elogiou minha competência e pediu para que eu voltasse. 
À noite, fui para a universidade (deixaram-me entrar...), falei com os colegas, com alguns professores, prometeram auxílio para que recuperasse o que foi perdido.
Reassumi minha antiga vida. Trabalho intenso, faculdade toda noite. Eu era o mesmo...
Dias passaram, semanas passaram, meses passaram até que, numa manhã...
... Acordei, olhei no espelho e não gostei do que vi - meu velho  rosto comum no espelho. Escovei os dentes, lavei o rosto, fui para o quarto me trocar. Enquanto esquentava o leite, vi meu reflexo na tampa do fogão. Senti nojo. A primeira coisa que vi foi o liquidificador, sobre a pia. Enfiei uma mão dentro e com a outra liguei. Depois de tudo certo, peguei a faca, decepei as duas orelhas, cortei toda a língua, enchi o liquidificador, e liguei de novo. De novo...
Misturei com o leite, tomei, passei mal e voltei a dormir. 
Acordei na manhã seguinte.
Olhei no espelho do banheiro e nada tinha acontecido. 
Fui trabalhar, não perdi o emprego. 
Fui à universidade, nada demais aconteceu. 
Depois de um dia exaustivo, voltei para casa, dormi até acordar na manhã seguinte. 
Vi meu rosto no espelho e fui trabalhar...

03/10/2013

A PASSEATA

Outubro de 1991 (mês é palpite, ano é certeza), medalha de ouro no Concurso Literário interno ETELG - Crônica (só dezessete anos, perdão pela imaturidade revelada nas opiniões, na expressão e na técnica ou falta dela). Mas é que o "gigante que tinha acordado" me recordou esse texto...


Vejo  um  careca. Vejo um  maneta. Vejo  um perneta. Eu vejo muletas.
Olhe a cadeira de rodas e o louco!
Por  que  choras? É  só  um filme,  é só  um  livro. Já pensaste na realidade? Não, perdão... Não quero te machucar, nem te ofender. Mas já encaraste o que aconteceu? E tanto silêncio, e tanta omissão, em tanta vergonha, em tanto desprezo?
Tu não  te  lembras de  nada?  É  o que  penso,  porque esqueceste de um passado com histórias lúgubres, horrorosas, insuportáveis. Só faze-me crer que o mundo não mudará.
Ah, é triste sofrer  por um  passado, por não se ter um presente e perder as esperanças com o futuro. Mas não, não é por isso que me ponho a refletir.
1o de abril de 1964. O dia em que os trouxões enganaram os trouxinhas, e os trouxinhas deixaram os trouxões pintarem e bordarem. Dias dos trouxas!
Desculpe se te mostro uma verdade  tão nua,  tão  crua, tão dura, tão triste. Mas não deu p'ra calar. O que aconteceu, aconteceu. O futuro? Ele ainda está por vir. Mas o passado...
O  passado não pode  ser apagado  sem que se meçam suas consequências sobre nosso futuro.
Parece que  esse tal de Brasil  sofreu  um  enfarte.  O diagnóstico foi tardio. Não houve remédio que desse jeito. Os "doutores" tinham uma máscara de competência sobre sua incompetência. Só um repouso de pouco menos de 25 anos (ou pouco mais!) funcionou. E o enfartado esqueceu-se de tudo, pois tudo dissipou-se estranhamente, repentinamente, surdinamente. E muitos nem se deram conta de tudo o que aconteceu. Porque diante de tanta omissão (e a indiferença) do momento, houve uma repetição da omissão (e da indiferença).
Procuraram  alienar  toda uma  geração  e  as  gerações posteriores. Conseguiram?...
Quem sou eu para apagar a omissão? Quero apenas alertá-los - e alertar-me - sobre os acontecimentos de um país tropical, onde os livros de História não contam a história porque o poder não deixa, fazendo com que basbaques imortais de "Fundação", "Elevado", "Rodovia", "Avenida", "Rua" e sabe-se lá mais o quê tornem-se falsos ídolos, nos quais muitos acreditam. "O pais dos pobres"! E os generais? Esses usurpadores da verdade, da vergonha, usurpadores de vidas humanas. Canalhas que destruíram esse país com delíquios e delírios de grandeza.
Histórias tristes, tenebrosas. Histórias de tortura, histórias de morte, de desaparecimentos. E não foi apenas uma vez. Só espero não ter de conhecer pessoalmente e presentemente essas histórias.
Às vezes nos  pedem amor à  pátria. Que pátria?  Pátria sem mãe, pátria sem pai, pátria sem dono.
Sei  que  já  choraste pela  morte  do  soldadinho,  lá naquela guerra distante, que essa nossa tal "Pátria-mãe" aqui apenas assistiu. Mas talvez não choraste pelos "irmãos de pátria" que morreram, que desapareceram, que estão inválidos ou loucos, numa guerra da razão contra o ensandecimento, ocorrida no ventre dessa tal "pátria-mãe".
Sim, sei que outros (e talvez tu) calaram e não lutaram porque a voz faltara. Outros fugiram, porque a voz não fora suficiente. Outros reconheceram-se impotentes, ao mirar os grilhões nas próprias mãos. E uma mancha obscura em alguns livros de história (que não são de História) contam para todos, enevoando a razão dos sãos.
Por que será que a História cala, se molda, se curva? Por que temos que buscar a verdade como se busca uma agulha num monte de palha?
Por que tudo isso, irmão? Por que não te levantas, irmão? Lute comigo, lute consigo, lute conosco. Escrever, pichar naquele muro, uma pichação digna, pela verdade. E contra a "verdade" que tu ouves e aceita, por preguiça de lutar pela verdade. E essa luta, talvez, seja apenas um unir de forças, um unir de mãos, um unir de vozes. Lutar pela verdade e pela dignidade de um país sem honra.
E tudo por causa de uma tal passeata...

01/10/2013

EM COMPLEMENTO... (licenças totais)

Insensatez.
Ah, sentimentalidade, mentira
ah, calamidades! É, solidão...

A alegria parte e abandona a alma
resta o sonho
só tortura da consciência mais forte.

Esperança, palavra podre
significado vazio, não há o que reste
das lágrimas e do medo.

Quando alguém te deixa só
não te pareces que já te conheces?

Quando alguém premedita uma atitude
veja a canção comum e a rima pobre.

Não te apresses
o tempo é tão grande quanto o mundo
o tempo é tão óbvio quanto o homem
o tempo é o homem em círculos.

E se tu premeditas, se a solidão é
tão singela quanto o medo da morte
qual o problema do abandono
do enorme mundo em torno de ti?

Tu, quem és?
És o mundo? O tempo? O homem?
Ou tu sou eu? Talvez eu sejas tu! Talvez
eu me esqueça. Talvez desfaleça...

Mas a atrofia de minhas mãos
não impede que minha memória se agite.
O frio dos pés não enregela o coração. Eu entrego então

o sim e o não, até outra hora, até o dia do perdão.

NA INFELIZ ARRANCADA FASCISTA EM QUE VIVEMOS...

BERLIM - ROMA - TÓQUIO

Mão.
Marcha.
Chavão.
Alerta!

Usufruto do pseudo-direito da certeza
aquisição factual do suposto direito de beleza,
riqueza, crescer,
fisiologia, poder,

fragmentos da mesma espécie de pobreza.

24/02/2013

MORTE A TODOS OS CORINTIANOS


Última quarta, notícia fartamente divulgada e comentada, morreu o menino Kevin na Bolívia durante uma partida de futebol. Episódio lamentável, triste. Porém, não inédito. Em tempos de campeonatos de futebol rolando - indo propositalmente para o lado do exagero - não passa um mês sem que morra um torcedor de futebol no Brasil por conta do comportamento e do confronto de torcidas. Muitos episódios restam clara e evidentemente relacionados com as tais “torcidas organizadas”; de tantos outros nem se suspeita ou não são tratados assim na cobertura de imprensa.  E justamente o não-ineditismo do caso revela o triste mundo em que vivemos. E, das reflexões que podem ser feitas a partir do acontecido e da onda de informações gerada, duas me saltam aos olhos:

Primeiro: o  acontecimento em Oruro, na Bolívia, foi claramente acidental. Fica evidente ao se observar o vídeo que começou a circular no final da tarde de quinta-feira, gravação de TV boliviana (programa “Zona Deportiva”). 

Não digo isso para minimizar a gravidade, para circunstancializar, diminuir ou  buscar uma justificativa pelo acontecido. Ao contrário! Porque, afinal de contas, como é que pode um jovem, menor de idade (facilmente identificado no vídeo já citado, dispensáveis as ironias e o tom de dúvida por conta da menor idade) faz uma viagem de ônibus, por 3 dias, para assistir um jogo; entra num estádio de futebol, de posse de tal artefato, que, por sinal, simplesmente, NÃO DEVERIA SER COMERCIALIZADO (não deveria, mesmo que seja legalizado) e, não bastasse tudo isso, resolve fazer uso do mesmo. Mostrou, primeiro, que mal sabia o que era aquilo e, segundo, não fazia ideia de como funcionava.
Quais valores este menino de 17 anos já tem consolidados em sua personalidade? Seriam tais valores exclusividade dele?
Demonstração do mundo do vale-tudo. Do mundo onde, mais que acompanhar um time de futebol, o espírito de grupo incita os piores comportamentos e leva à tamanha inconsequência. Do mundo onde grassa a ignorância e a indiferença pela aprendizagem que, quando misturada com a prepotência de saber tudo, transforma-se numa fórmula extremamente perigosa - senão mortal.
Para finalizar este primeiro aspecto, é triste que todos nós tenhamos que admitir e concordar com o fato de que apenas as amplas e pesadas punições (ao jovem, à “torcida organizada” e aos dois clubes) pode remota e dificilmente diminuir a ocorrência de tragédias como essa. Antes vivêssemos num mundo de outros valores, onde este comportamento em si fosse absoluta exceção - e não completa regra. Ridículo, triste, próximo à barbárie em todos os momentos - além de tudo, triste e trágico, neste caso.

Segundo: a prevalência do ódio. Há tempos já refleti sobre o quão triste e até asqueroso pode ser o futebol, esporte tão maravilhoso e de prática deliciosa (http://soexperimentos.blogspot.com.br/2011/07/do-futebol-para-vida.html)
De quarta-feira para hoje, este quase asco da publicação mencionada se acentuou. Li e vi de colegas, de amigos, de adolescentes imaturos, de idiotas sentados à frente de um computador, de amigos, de adultos conscientes, de indivíduos extremamente bem formados e informados (bem informados não pela mídia corrupta e sem vergonha que vende opinião), de pessoas evidentemente capazes de reflexões um pouco mais profundas e sérias, das mais variadas formas, ironias, suspeitas, dúvidas, piadinhas e sentenças que destilam pura e irracionalmente ódio contra um time de futebol. Apenas por coincidência, neste caso (e  esta última menção é inútil para todos os que querem enxergar o clubismo em tudo, àqueles que continuam defendendo com unhas e dentes os seus “partidos de futebol”, de alguns que tem tanta capacidade de enxergar verdades que pouco quer se mostrar mas que se perdem nesta armadilha quando o assunto é futebol - bom, menos mal que seja assim!), este é o time para o qual digo torcer. 
Em outras ocasiões, em comentários feitos às notícias originadas por outros assuntos, a minha sensação talvez fosse de indignação. Não é o caso.  O que sinto é tristeza. E pena em saber que o caminho é o de cada vez mais se afastar do futebol. Ainda resisto. Ainda assisto. Ainda torço. Mas cada vez menos sei  porquê. Afinal, desta vez o Corinthians é o alvo. Insanamente, inconsequentemente, os vídeos, frases, comentários de notícias e publicações têm um tom que coloca todo corintiano como um assassino. Como se todos os cidadãos, crianças, adolescentes, adultos ou idosos que já morreram em conflitos ridículos originados pelo futebol tivessem morrido pelas mãos daqueles que torcem pelo Corinthians.
É uma postura extremamente infeliz. Circunscreve os comportamentos humanos, ou, melhor, muitos dos péssimos comportamentos humanos, àqueles que torcem pelo Corinthians. Não querem enxergar os fatos. Querem deixar claro o quanto odeiam os corintianos, no modo mais genérico. E, neste caso, não adianta individualizar o amigo, o primo, o vizinho, o colega de trabalho, o tio, o irmão, etc., como "bons corintianos". Isso não vai nos tirar da miséria de comportamento donde estamos, não vai nos tirar esta corrida incessante pela volta à barbárie. Apenas obscurece as verdadeiras mazelas da sociedade humana. Fosse tão simples, para resolver alguns dos problemas do mundo, bastaria decretar morte a todos os corintianos. Acontece que isso é apenas a revelação de tamanho ódio - então, mais um problema a resolver.

(P.S: mais piadinhas e ironias sobre o título e a última frase serão desconsideradas e sumariamente excluídas).

25/01/2013

NA MUDANÇA... ESSA DATA DE 2003

Impressões recolhidas (retraídas),
não escolhidas pela ausência de
opções.

Mudança de comportamento,
mudança no comportamento.
Secção. compartimentos,
divisões, tormentos...

Imaturidade gerando falsa fleugma
serenidade "mis-en-scène" de quem
vive esperando pequenos milagres,
ligeiras fortunas precedindo
e precedendo
decepções.

Por melhor que sejam as intenções,
para maior conforto da
dignidade,
que diferença faz?
Rapidamente tudo fica pra trás,
ignora-se,
despreza-se,
olho no umbigo ou
olhos semicerrados.

Assim caminha a Unidade Escolar!

31/12/2012

Parte 4 - "A menina que roubava livros" (The book thief), Markus Zusak

Foi uma releitura.
Espetacular. Poderia acabar por aqui, mas vamos lá... Reler é ainda mais espetacular do que ter lido pela primeira vez.
Já falei do autor: http://www.soexperimentos.blogspot.com.br/2012/10/resenha-eu-sou-o-mensageiro-messenger_20.html
O australiano Zusak deve ter feito aqueles cursos de graduação, muito comuns nos EUA, para formação de escritores. Mas acontece que, se  isso serviu para torná-lo o escritor que ele é, que bom!! Pois, se ele já tinha demonstrado uma habilidade para técnicas narrativas diferenciadas no "Mensageiro...", na "Menina..." ele se sobressaiu. É técnica de best-seller, indiscutivelmente. Mas serviu à história. E, ah, a história...
Fiquei inconformado com o final do livro. Inconformado simplesmente porque ele acabou, porque não teria mais a história. E um final perfeito, com uma frase final que é um avassalador nocaute.
Livro belíssimo, tocante. As cores e o cinza. O amor mais sincero que nunca se demonstra. Maturidade à forceps. A generosidade na pobreza. Amores infantis. Sobrevivência, apego ao fato de estar vivo. O eterno combate contra o maior dos oradores, no meio dos sonos, inclusive àqueles de dias pós dias. Outro lado da Alemanha sob o nazismo (um lado que o maniqueísmo consciente ou inconsciente nega a todo custo).
Um bom punhado de personagens fantásticos, viscerais, humanos, de corações cheios e quentes. Até a narradora da história (não é humana), mostrou um lado humano (segundo ela mesmo, será??) gigantesco. Grande o esforço para resistir a tentação de pinçar várias e várias frases espetaculares, mas o que adiantaria fora do contexto?
Quantas lágrimas, e quanta vontade de continuar a derramá-las, mas o livro acabou...
Nas edições até aqui da Editora Intrínseca, até a capa é espetacular, perfeita - mas isso você só percebe, só entende, após a leitura.
Ah, não leu ainda? ´Tá esperando o quê?

Parte 3 - "O Seminarista" e "José", Rubem Fonseca

Tentando ser como ele...
Tenho profunda admiração pelo romancista Rubem Fonseca. Alguma reserva sobre seus contos.
Agrada-me a fluência de sua narrativa. A economia de palavras para descrever fatos ou narrar atos. A técnica de adjetivar com substantivos. Brilhante.
"O Seminarista" trata de um assassino profissional que decide abandonar a carreira, o que deixa mais fácil perceber seu viés epicurista. Comida, vinhos, mulheres. Como todo bom personagem de Rubem Fonseca, as mulheres o adoram e trepam (expressão muito fonsequiana) com ele sem muitas reservas ou considerações.
O livro prende. Tem uma história. É de um domador da língua, grande narrador. Ótimo passatempo, mas é revisitar vários outros romances do homem.
Aí, tem "José". Problema, para mim, é que trata-se de uma narrativa sem história. A infância, as mudanças, os choques econômicos da família; o autodidata José, que se tornou bacharel em direito e resolveu ser advogado dos pobres (que, pra variar, conheceu e trepou com um montão de mulheres). Pareceu-me uma coleta de reminiscências da própria vida do autor, embora anunciadamente ficcional. Quem é José? 

Parte 2 - Assassinato na Academia Brasileira de Letras, Jô Soares.

Misturar realidade e ficção, história e ficção. Forrest Gump, filme maravilhoso, completo, assistindo você ri, chora, enraivece-se, comove-se, indigna-se (roteiro adaptado de livro, por sinal).
Jô Soares "saiu" com um Xangô de Baker Street: com auxílio de dezenas de pesquisadores, misturou um pouco da história da cidade do Rio de Janeiro com uma passagem do londrino Sherlock Holmes pelo Brasil. Bom livro, grande divertimento, muitas curiosidades, grandes sacadas!
Depois, veio o "Homem que matou Getúlio Vargas", grande livro!! Um anarquista bósnio que viaja pelo mundo e termina no Brasil provocando a morte de Getúlio Vargas. Cômico, uma leve aula de história, e com a pesquisa integral do gordinho.
Agora, o "Assassinato..." já é abusar da boa vontade! De novo, a cidade do Rio, de novo, um grande mistério, de novo, um grande detetive (com um toque de Rubem Fonseca), e um desfecho previsível. Nam tão cômico assim o livro consegue ser.
Para mim, um fracasso. Li por curiosidade. Talvez valha para os fãs!

Parte 1 - antes que o calendário vire: resenhas, na ordem de leitura. Clube do Filme ("The film club"), David Gilmour

Conversando por telefone com meu amigo e compadre Renê, uns três meses atrás, por uma razão que não recordo exatamente ele citou o autor do livro, David Gilmour. Creio que muitos sabem ser este o nome do "lead guitar" do Pink Floyd, que ingressou definitivamente no grupo pouco antes da paranoia total do quarto fundador, Syd Barret.
Ouvira falar do livro anos atrás, quando do seu lançamento no Brasil. Atingiu a lista dos mais vendidos. Curioso com o tema (pai - David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd - "educando" o filho com 3 filmes por semana), várias vezes pensei em comprar o livro. Uma vez, inclusive, uma compra pela internet falhou (lembro porquê não...)
Pois é.
Ao ouvir sobre David Gilmour - autor do livro "Clube do Filme" - comecei digressões e cotejos sobre a obra e o nome do autor com o Renê (que sabe tanto de Pink Floyd e Rock´n´roll quanto eu sei a conjugação do verbo "enrolar" em aramaico), fiz uma rápida pesquisa na superultramaravilha dos tempos modernos - a intelnéte - e percebi que, como dissera o Renê, David Gilmour autor do livro era um cineasta-documentarista canadense.
Dias depois, ele e a Lu, sua companheira, me trouxeram o livro emprestado. Não lembro se num sábado ou domingo.
Comecei a lê-lo no final da tarde de segunda-feira.
Na terça, pouco após do almoço, com muito nó na garganta, terminei a leitura.
Para além de quem seja este Gilmour ou de quais filmes ele tenha utilizado - ótimos, bons, medianos, detestáveis, para o próprio selecionador -, o que me ficou, sendo pai, é o quanto pode ser ao mesmo tempo única e complexa a relação com um filho. E quantas "apostas" fazemos na relação, sempre na expectativa do melhor, mas assumindo riscos que nos levam ao desespero enquanto cada processo não se resolve.
O autor bancou o abandono da escola pelo filho com a tática dos filmes. Viu o garoto quase morrer pelo uso de cocaína - algo que, na indicação da narrativa, aconteceu apenas duas vezes. Mas, de aposta em aposta, a verdade é que tudo deu certo. E a inteligência e perspicácia deste pai, em vários momentos, é que me travou a garganta e enxaguou os olhos: conseguirei eu, diante tantos obstáculos, chegar perto desta sabedoria?
O grande mérito de Gilmour foi o de transparecer a emoção de se ter um filho, educar um filho, amar um filho; de situações que nos levam a transigir, que é o contrário do que faríamos caso não se tratasse da paternidade; e de sermos intransigentes e contraditórios na relação não de graça, mas porque tudo tem seu tempo, tem sua hora, e cada um tem sua individualidade, maturidade, etc.
Difícil.
Mas maravilhoso, razão de viver.
Leitura obrigatória para quem é pai. Mais ainda se pai de filho homem, pela especificidade da história.

21/12/2012

DE QUANTOS "FINS DO MUNDO" QUEREMOS FALAR??


Não sei por que entrou na minha cabeça que esse papo de fim do mundo seria às 6 da tarde. Certamente ouvi a bobagem em algum lugar.
Nos últimos dias estive pensando no “fim do mundo”. Olha, se houvesse outro tipo de ser vivo com inteligência similar ou superior à nossa, sei não, acho que isso poderia quase ser-lhes um desejo – fim do mundo no sentido “extermínio humano”, afinal, nunca entendi que o planeta Terra todo conheceria o fim – apenas estaria livre da presença humana - como diria o grande cantor, compositor, linguista e filósofo baiano, "se ele não aguenta mais as pulgas, se livra delas num sacolejo".
E, afinal de contas, não precisamos de nenhum fenômeno além das nossas próprias atitudes para gerar “fins de mundo”.
Júlio César, lá  pela metade do século I a.C., comandando exércitos romanos na tentativa de conquistar a Gália,  proporcionou a morte de 3 milhões de pessoas. Foi o fim do mundo para os gauleses.
Entre os séculos XI e XIII, das Cruzadas às estripulias de Genghis Khan, quase 40 milhões de muçulmanos morreram no mundo islâmico à Oriente. Para eles, fim do mundo.
Quantos nativos americanos, de Norte a Sul, morreram com a invasão e conquista europeia do continente? Dizem entre 50 e 100 milhões. Cadê os astecas? Cadê os maias, da tal profecia? Para eles, o mundo acabou bem antes!!
Das diferentes etnias e nações africanas, como calcular a quantidade de atacados, violentados, sequestrados, seviciados por obra da crueldade eurocentrista? Fim de mundo para eles, e especialmente para os que vieram para ser escravizados na América, mortos no mar, mortos em terra, mortos em tronco, mortos de fome, mortos doentes.
E o holocausto armênio pelos turcos, em plena 1ª Guerra Mundial? Fim do mundo até hoje para os herdeiros, pois o massacre de quase 2 milhões de armênios ainda não foi reconhecido pelos turcos.
Por sinal, e os 10 a 20 milhões de mortos da Primeira Guerra Mundial? Aquilo foi um fim de mundo!!!
E as 30 ou 40 milhões de mortes atribuídas ao regime stalinista, contra os “inimigos internos” do regime? Que fim de mundo!
Depois, 6 milhões de judeus caçados e exterminados na Alemanha pela mentalidade doentia de um homem, pela sua notável oratória e pelo medo e rancor que inspirou em outros milhões? Mais um holocausto, mais um fim de mundo!
Segunda Guerra Mundial, não nos esqueçamos: tem quem fale em 60 milhões de mortos. É ou não é o fim do mundo?
Indispensável falar de Hiroshima e Nagazáki: o quê pensou quem viu e sobreviveu àquilo?? Quase 200 mil mortos no tempo de se piscar os olhos duas vezes...
Holocausto cambojano, mais 8 milhões de mortos.
Guerra do Vietnã, 6 milhões de vietnamitas e 500 mil estadunidenses.
Sem falar de católicos contra huguenotes na França, belgas no Congo, franceses na Argélia, Revolução Cultural, regimes militares nas Américas Central e do Sul, hutus contra tutsis em Ruanda... E na China, 30 milhões com Al Lushan, dezenas de milhões em manchus contra mings, outros tantos na guerra do ópio...

Sem asteroide. Sem terremoto. Sem tsnuami, desabamentos, nevascas, tempestades, maremotos. Só pela ação humana.
Como disse dona morte, “constantemente superestimo e subestimo a raça humana (...) raras vezes simplesmente a estimo”.
Alguém aí ainda quer falar de fim de mundo?

20/10/2012

RESENHA: "Eu sou o Mensageiro" ("The Messenger"), Markus Zusak - leitura inédita.

Devo algumas para este espaço, mas tenho pacientemente esperado pessoas lerem alguns títulos antes de falar sobre eles. Mas deste, simplesmente não resisti. Não esperarei ninguém!

Conheci  Markus Zusak como autor um tanto com má vontade. Um dia tomei nas mãos "A Menina que Roubava Livros" ("The Book Thief") meio que de nariz torto, sentindo um cheiro de mero best-seller (não na definição de vender muito, que nem é problema, mas na de ser escrito primordialmente para vender muito). Mas aí, com duas páginas, a maravilhosa... 

Péraí... Não... "A Menina..." tem que ficar para outra vez, depois de uma releitura; só posso dizer que chorei, e que pelo autor decidi ler também "Eu sou o Mensageiro", mesmo com esse título religioso-místico-esotérico. E, pra começar, com a edição na mão, vem a informação que a obra é anterior à "A menina..." Começo a ler e me incomodo com a tradução (cheia de gírias, tentando ser informal, mas que para mim não funcionou - e sem críticas ao tradutor, porque vou lá eu saber o que ele pretendeu fazer ao ver os originais!), com a maneira meio cinematográfica-hollywoodiana da história começar... Veio a impressão de que, apesar de "A menina..." - que efetivamente virou um grande best-seller, mas não me pareceu escrito com essa principal intenção -, na verdade Zusak sonhava mesmo em ser (usando um termo hispanohablante) best-sellerista. 

Mas a leitura, mesmo com algumas técnicas de best-seller (o início, a tradução, os capítulos curtos, o acabamento da edição) não era típica de best-seller. A ótima narração de Zusak vai nos carregando adiante não pela expectativa, mas pela fluência, pela naturalidade e, em alguns momentos, por nos atiçar na emoção. E de maneira até banal, comum.

Pois é, comum. Ora, e o que temos de comum??? Somos todos comuns - ou não; se não, então somos comuns, pois tão parecidos por sermos incomuns.


E “Eu sou o mensageiro” trata de um jovem comum. Um jovem ocidentalizado comum, filho de uma família trabalhadora comum, com uma vida comum. Daqueles que sentem uma frustração irrevelada com a própria vida, posto que tem que vivê-la no que tem de rotineira -  isso não é comum?? -, mas vez por outra pensa no que poderia ter sido ou, mais simplesmente, pensa no que não é - quer mais comum que isso?

Ed Kennedy até se compara com Bob Dylan, Salvador Dalí e Joana D´Arc na mesma idade que ele: que feitos espetaculares já tinham produzido aos 19 anos!! Ele, simplesmente um motorista de táxi que mentiu para a idade para começar a trabalhar, ganhando o suficiente pra tocar aquela rotina lá, seguir seu cotidiano, bater seu carteado inofensivo com os amigos que, bem... Amigos, dois pra serem por ele criticados e uma que ele não "amigava", mas sim, amava.

Acontece que a história trata do que Ed Kennedy foi posto para fazer. E, mesmo tão comum, tão simples, tendo por recompensas o abraço de uma criança, meia-dúzia de sorrisos, calorosos apertos de mãos e alguns olhares, os feitos de Ed Kennedy nada perdem para os de Mr. Zimmerman, Dalí e Joana D´Arc. A prova de que, como disse Maiakóvsky ("Confusão de poesia e luz, / chamas por toda a parte. / Se o sol se cansa / e a noite lenta / quer ir pra cama, /marmota sonolenta, / eu, de repente, / inflamo a minha flama / e o dia fulge novamente. / Brilhar para sempre, / brilhar como um farol, / brilhar com brilho eterno") gente é pra brilhar. Acontece que às vezes os mais ofuscantes brilhos não são públicos nem para exibição; são apenas para conhecer e se autoconhecer. Humanamente, só enxerga - sem se ofuscar! - o brilho quem quer com humanos olhos observar.

Assim como já acontecera com “A menina...”, a vontade ao final da leitura (bom final, mas que particularmente me frustrou, assim como me frustrou “Desconstruindo Harry”, filme de Woody Allen, mas isso pouquíssimos entenderão, se alguém entender...) foi a de levantar e bater palmas, de olhos marejados.

27/08/2012

Mais coisa velha...

Líquido Cardíaco

Dor do meio
dessangra
machuca
torna vazio
insípido
inconsciente
verdadeiro precipício
a queda
o fim
vida
despedida
sem sim, senão
só, não.

21/08/2012

Não é verdade, é hipótese; não é metafísico, é puramente material...


Caos sem caos


Se o Universo é regido por rigorosas leis matemáticas, inclusive nos seus constantes movimentos de contração e expansão, então as rotinas repetem-se ad infinitum, pois a exatidão das variantes levariam à precisa repetição: simetria divina (???)
Em outras palavras, o que você vive agora pode já ter vivido milhões de vezes, e ainda viverá outras incontáveis. Portanto, eu vou escrever e você vai ler isto aqui infinitas vezes.

09/08/2012

Ainda ouço...

... a água correndo. É um fiozinho mínimo, estreitando... Deve ser mania, minha, esperança, a minha... Mas ouço... Ouço mesmo!!

O fio d´água
qual caos:
contração, expansão, 
volume e escassez, 
volume ou escassez?

Condição pelo livre-arbítrio,
entre volume ou escassez.
Mas fica pleno o risco
de arbitrar na costumeira escassez.

Em conta-gotas,
não há gotas que bastem.
Por isso, portanto, "ergo", 
da intermitência à perenidade,
perene escassez, paraíso para
a proliferação da ignorância.

Vocês e eu,
nós e aqueles,
àqueles não há porquê
pois resta manter,
qual caos,
o fio d´água.

25/07/2012

PELO DIA

Como hoje foi o dia do escritor, repito aqui uma postagem de texto antigo, no qual a rigor revela-se a frustração por não ter conseguido efetivamente me tornar um - faltou e falta capacidade, mesmo, apesar de todos os experimentos...


Quando elas não valem nada

Palavra por palavra
a minha não vale nada.

Palavras são meros instantes,
não podem ser nada além
de fruição momentânea quando não
repercutem em atos
nem em fatos.

Palavra tantas vezes é receio,
receio de viver. Vida 
na complexidade dos atos,
mas atos nem sempre são
repercussão de palavras.

Porque palavras se vão com o vento,
com a brisa espessa que assusta o amor.
Diluem-se no líquido sagrado da suposta alma,
num banho de lágrimas...

Tudo quase para sempre assim será
e o que ainda não pode ser dedica-se
a ludibriar o passo tranqüilo de quem
um dia imaginou-se simples mortal.

Mas mortal é aquele que vive. E 
viver é a complexidade dos atos - ou fatos -,
não das palavras. Palavras traduzem existir.
E, se por falsas,
se por retratistas imediatas,
palavras não são vida; de simples mortal,
torno-me característica passiva da existência.

Existindo
para poder, com ou sem palavras, 
um dia aprender a viver.

14/07/2012

ENQUANTO ISSO, NUM DISTANTE MÊS DE JULHO, 20 ANOS ATRÁS...

O Mesmo Lugar

As crianças sangram
carregando as pedras da pirâmide;
elas não podem se cansar, 
é uma poção de suor e sangue.

Falta o catalisador da lágrima - 
mas elas não podem chorar,
elas não devem gritar, 
valem seus suspiros e olhos fechados.

Nunca ouviram falar em liberdade
pois,
se ouvissem,
as convenceriam que são livres
tanto quanto peixes num aquário.

Os dias surgiam
cada noite caía,
como rochas em telhas de vidro.
Silêncio absoluto, sem gemidos,
sem murmúrios.

Estão cegas, mudas, surdas,
mas sabem tão bem o que acontece,
embora não façam ideia do que acontecerá
na velha sempre nova aurora.

E o mundo as conhece bem
ainda que finja não vê-las!,
porque nada pode ser maior
que a piedade de si mesmo.

17/06/2012

Mais uma que já completou a maioridade...

BLECAUTE

De olhos fechados
meço meus passos
tendo o caminho na mente
e o passado aos pés.

Sirvo-me do tato
e sei o que toco.
Sigo sem medo e
não vou esquecer o caminho.
Sei que é difícil sozinho,
mas não há mais como errar.

Sei que não sei que
não enxergo por onde vou.
Mas basta-me ainda a coerência,
Para reconhecer o destino único.