De Alberto Caieiro, "em Pessoa":

"Pensar incomoda como andar na chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais"

24/02/2013

MORTE A TODOS OS CORINTIANOS


Última quarta, notícia fartamente divulgada e comentada, morreu o menino Kevin na Bolívia durante uma partida de futebol. Episódio lamentável, triste. Porém, não inédito. Em tempos de campeonatos de futebol rolando - indo propositalmente para o lado do exagero - não passa um mês sem que morra um torcedor de futebol no Brasil por conta do comportamento e do confronto de torcidas. Muitos episódios restam clara e evidentemente relacionados com as tais “torcidas organizadas”; de tantos outros nem se suspeita ou não são tratados assim na cobertura de imprensa.  E justamente o não-ineditismo do caso revela o triste mundo em que vivemos. E, das reflexões que podem ser feitas a partir do acontecido e da onda de informações gerada, duas me saltam aos olhos:

Primeiro: o  acontecimento em Oruro, na Bolívia, foi claramente acidental. Fica evidente ao se observar o vídeo que começou a circular no final da tarde de quinta-feira, gravação de TV boliviana (programa “Zona Deportiva”). 

Não digo isso para minimizar a gravidade, para circunstancializar, diminuir ou  buscar uma justificativa pelo acontecido. Ao contrário! Porque, afinal de contas, como é que pode um jovem, menor de idade (facilmente identificado no vídeo já citado, dispensáveis as ironias e o tom de dúvida por conta da menor idade) faz uma viagem de ônibus, por 3 dias, para assistir um jogo; entra num estádio de futebol, de posse de tal artefato, que, por sinal, simplesmente, NÃO DEVERIA SER COMERCIALIZADO (não deveria, mesmo que seja legalizado) e, não bastasse tudo isso, resolve fazer uso do mesmo. Mostrou, primeiro, que mal sabia o que era aquilo e, segundo, não fazia ideia de como funcionava.
Quais valores este menino de 17 anos já tem consolidados em sua personalidade? Seriam tais valores exclusividade dele?
Demonstração do mundo do vale-tudo. Do mundo onde, mais que acompanhar um time de futebol, o espírito de grupo incita os piores comportamentos e leva à tamanha inconsequência. Do mundo onde grassa a ignorância e a indiferença pela aprendizagem que, quando misturada com a prepotência de saber tudo, transforma-se numa fórmula extremamente perigosa - senão mortal.
Para finalizar este primeiro aspecto, é triste que todos nós tenhamos que admitir e concordar com o fato de que apenas as amplas e pesadas punições (ao jovem, à “torcida organizada” e aos dois clubes) pode remota e dificilmente diminuir a ocorrência de tragédias como essa. Antes vivêssemos num mundo de outros valores, onde este comportamento em si fosse absoluta exceção - e não completa regra. Ridículo, triste, próximo à barbárie em todos os momentos - além de tudo, triste e trágico, neste caso.

Segundo: a prevalência do ódio. Há tempos já refleti sobre o quão triste e até asqueroso pode ser o futebol, esporte tão maravilhoso e de prática deliciosa (http://soexperimentos.blogspot.com.br/2011/07/do-futebol-para-vida.html)
De quarta-feira para hoje, este quase asco da publicação mencionada se acentuou. Li e vi de colegas, de amigos, de adolescentes imaturos, de idiotas sentados à frente de um computador, de amigos, de adultos conscientes, de indivíduos extremamente bem formados e informados (bem informados não pela mídia corrupta e sem vergonha que vende opinião), de pessoas evidentemente capazes de reflexões um pouco mais profundas e sérias, das mais variadas formas, ironias, suspeitas, dúvidas, piadinhas e sentenças que destilam pura e irracionalmente ódio contra um time de futebol. Apenas por coincidência, neste caso (e  esta última menção é inútil para todos os que querem enxergar o clubismo em tudo, àqueles que continuam defendendo com unhas e dentes os seus “partidos de futebol”, de alguns que tem tanta capacidade de enxergar verdades que pouco quer se mostrar mas que se perdem nesta armadilha quando o assunto é futebol - bom, menos mal que seja assim!), este é o time para o qual digo torcer. 
Em outras ocasiões, em comentários feitos às notícias originadas por outros assuntos, a minha sensação talvez fosse de indignação. Não é o caso.  O que sinto é tristeza. E pena em saber que o caminho é o de cada vez mais se afastar do futebol. Ainda resisto. Ainda assisto. Ainda torço. Mas cada vez menos sei  porquê. Afinal, desta vez o Corinthians é o alvo. Insanamente, inconsequentemente, os vídeos, frases, comentários de notícias e publicações têm um tom que coloca todo corintiano como um assassino. Como se todos os cidadãos, crianças, adolescentes, adultos ou idosos que já morreram em conflitos ridículos originados pelo futebol tivessem morrido pelas mãos daqueles que torcem pelo Corinthians.
É uma postura extremamente infeliz. Circunscreve os comportamentos humanos, ou, melhor, muitos dos péssimos comportamentos humanos, àqueles que torcem pelo Corinthians. Não querem enxergar os fatos. Querem deixar claro o quanto odeiam os corintianos, no modo mais genérico. E, neste caso, não adianta individualizar o amigo, o primo, o vizinho, o colega de trabalho, o tio, o irmão, etc., como "bons corintianos". Isso não vai nos tirar da miséria de comportamento donde estamos, não vai nos tirar esta corrida incessante pela volta à barbárie. Apenas obscurece as verdadeiras mazelas da sociedade humana. Fosse tão simples, para resolver alguns dos problemas do mundo, bastaria decretar morte a todos os corintianos. Acontece que isso é apenas a revelação de tamanho ódio - então, mais um problema a resolver.

(P.S: mais piadinhas e ironias sobre o título e a última frase serão desconsideradas e sumariamente excluídas).

25/01/2013

NA MUDANÇA... ESSA DATA DE 2003

Impressões recolhidas (retraídas),
não escolhidas pela ausência de
opções.

Mudança de comportamento,
mudança no comportamento.
Secção. compartimentos,
divisões, tormentos...

Imaturidade gerando falsa fleugma
serenidade "mis-en-scène" de quem
vive esperando pequenos milagres,
ligeiras fortunas precedindo
e precedendo
decepções.

Por melhor que sejam as intenções,
para maior conforto da
dignidade,
que diferença faz?
Rapidamente tudo fica pra trás,
ignora-se,
despreza-se,
olho no umbigo ou
olhos semicerrados.

Assim caminha a Unidade Escolar!

31/12/2012

Parte 4 - "A menina que roubava livros" (The book thief), Markus Zusak

Foi uma releitura.
Espetacular. Poderia acabar por aqui, mas vamos lá... Reler é ainda mais espetacular do que ter lido pela primeira vez.
Já falei do autor: http://www.soexperimentos.blogspot.com.br/2012/10/resenha-eu-sou-o-mensageiro-messenger_20.html
O australiano Zusak deve ter feito aqueles cursos de graduação, muito comuns nos EUA, para formação de escritores. Mas acontece que, se  isso serviu para torná-lo o escritor que ele é, que bom!! Pois, se ele já tinha demonstrado uma habilidade para técnicas narrativas diferenciadas no "Mensageiro...", na "Menina..." ele se sobressaiu. É técnica de best-seller, indiscutivelmente. Mas serviu à história. E, ah, a história...
Fiquei inconformado com o final do livro. Inconformado simplesmente porque ele acabou, porque não teria mais a história. E um final perfeito, com uma frase final que é um avassalador nocaute.
Livro belíssimo, tocante. As cores e o cinza. O amor mais sincero que nunca se demonstra. Maturidade à forceps. A generosidade na pobreza. Amores infantis. Sobrevivência, apego ao fato de estar vivo. O eterno combate contra o maior dos oradores, no meio dos sonos, inclusive àqueles de dias pós dias. Outro lado da Alemanha sob o nazismo (um lado que o maniqueísmo consciente ou inconsciente nega a todo custo).
Um bom punhado de personagens fantásticos, viscerais, humanos, de corações cheios e quentes. Até a narradora da história (não é humana), mostrou um lado humano (segundo ela mesmo, será??) gigantesco. Grande o esforço para resistir a tentação de pinçar várias e várias frases espetaculares, mas o que adiantaria fora do contexto?
Quantas lágrimas, e quanta vontade de continuar a derramá-las, mas o livro acabou...
Nas edições até aqui da Editora Intrínseca, até a capa é espetacular, perfeita - mas isso você só percebe, só entende, após a leitura.
Ah, não leu ainda? ´Tá esperando o quê?

Parte 3 - "O Seminarista" e "José", Rubem Fonseca

Tentando ser como ele...
Tenho profunda admiração pelo romancista Rubem Fonseca. Alguma reserva sobre seus contos.
Agrada-me a fluência de sua narrativa. A economia de palavras para descrever fatos ou narrar atos. A técnica de adjetivar com substantivos. Brilhante.
"O Seminarista" trata de um assassino profissional que decide abandonar a carreira, o que deixa mais fácil perceber seu viés epicurista. Comida, vinhos, mulheres. Como todo bom personagem de Rubem Fonseca, as mulheres o adoram e trepam (expressão muito fonsequiana) com ele sem muitas reservas ou considerações.
O livro prende. Tem uma história. É de um domador da língua, grande narrador. Ótimo passatempo, mas é revisitar vários outros romances do homem.
Aí, tem "José". Problema, para mim, é que trata-se de uma narrativa sem história. A infância, as mudanças, os choques econômicos da família; o autodidata José, que se tornou bacharel em direito e resolveu ser advogado dos pobres (que, pra variar, conheceu e trepou com um montão de mulheres). Pareceu-me uma coleta de reminiscências da própria vida do autor, embora anunciadamente ficcional. Quem é José? 

Parte 2 - Assassinato na Academia Brasileira de Letras, Jô Soares.

Misturar realidade e ficção, história e ficção. Forrest Gump, filme maravilhoso, completo, assistindo você ri, chora, enraivece-se, comove-se, indigna-se (roteiro adaptado de livro, por sinal).
Jô Soares "saiu" com um Xangô de Baker Street: com auxílio de dezenas de pesquisadores, misturou um pouco da história da cidade do Rio de Janeiro com uma passagem do londrino Sherlock Holmes pelo Brasil. Bom livro, grande divertimento, muitas curiosidades, grandes sacadas!
Depois, veio o "Homem que matou Getúlio Vargas", grande livro!! Um anarquista bósnio que viaja pelo mundo e termina no Brasil provocando a morte de Getúlio Vargas. Cômico, uma leve aula de história, e com a pesquisa integral do gordinho.
Agora, o "Assassinato..." já é abusar da boa vontade! De novo, a cidade do Rio, de novo, um grande mistério, de novo, um grande detetive (com um toque de Rubem Fonseca), e um desfecho previsível. Nam tão cômico assim o livro consegue ser.
Para mim, um fracasso. Li por curiosidade. Talvez valha para os fãs!

Parte 1 - antes que o calendário vire: resenhas, na ordem de leitura. Clube do Filme ("The film club"), David Gilmour

Conversando por telefone com meu amigo e compadre Renê, uns três meses atrás, por uma razão que não recordo exatamente ele citou o autor do livro, David Gilmour. Creio que muitos sabem ser este o nome do "lead guitar" do Pink Floyd, que ingressou definitivamente no grupo pouco antes da paranoia total do quarto fundador, Syd Barret.
Ouvira falar do livro anos atrás, quando do seu lançamento no Brasil. Atingiu a lista dos mais vendidos. Curioso com o tema (pai - David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd - "educando" o filho com 3 filmes por semana), várias vezes pensei em comprar o livro. Uma vez, inclusive, uma compra pela internet falhou (lembro porquê não...)
Pois é.
Ao ouvir sobre David Gilmour - autor do livro "Clube do Filme" - comecei digressões e cotejos sobre a obra e o nome do autor com o Renê (que sabe tanto de Pink Floyd e Rock´n´roll quanto eu sei a conjugação do verbo "enrolar" em aramaico), fiz uma rápida pesquisa na superultramaravilha dos tempos modernos - a intelnéte - e percebi que, como dissera o Renê, David Gilmour autor do livro era um cineasta-documentarista canadense.
Dias depois, ele e a Lu, sua companheira, me trouxeram o livro emprestado. Não lembro se num sábado ou domingo.
Comecei a lê-lo no final da tarde de segunda-feira.
Na terça, pouco após do almoço, com muito nó na garganta, terminei a leitura.
Para além de quem seja este Gilmour ou de quais filmes ele tenha utilizado - ótimos, bons, medianos, detestáveis, para o próprio selecionador -, o que me ficou, sendo pai, é o quanto pode ser ao mesmo tempo única e complexa a relação com um filho. E quantas "apostas" fazemos na relação, sempre na expectativa do melhor, mas assumindo riscos que nos levam ao desespero enquanto cada processo não se resolve.
O autor bancou o abandono da escola pelo filho com a tática dos filmes. Viu o garoto quase morrer pelo uso de cocaína - algo que, na indicação da narrativa, aconteceu apenas duas vezes. Mas, de aposta em aposta, a verdade é que tudo deu certo. E a inteligência e perspicácia deste pai, em vários momentos, é que me travou a garganta e enxaguou os olhos: conseguirei eu, diante tantos obstáculos, chegar perto desta sabedoria?
O grande mérito de Gilmour foi o de transparecer a emoção de se ter um filho, educar um filho, amar um filho; de situações que nos levam a transigir, que é o contrário do que faríamos caso não se tratasse da paternidade; e de sermos intransigentes e contraditórios na relação não de graça, mas porque tudo tem seu tempo, tem sua hora, e cada um tem sua individualidade, maturidade, etc.
Difícil.
Mas maravilhoso, razão de viver.
Leitura obrigatória para quem é pai. Mais ainda se pai de filho homem, pela especificidade da história.

21/12/2012

DE QUANTOS "FINS DO MUNDO" QUEREMOS FALAR??


Não sei por que entrou na minha cabeça que esse papo de fim do mundo seria às 6 da tarde. Certamente ouvi a bobagem em algum lugar.
Nos últimos dias estive pensando no “fim do mundo”. Olha, se houvesse outro tipo de ser vivo com inteligência similar ou superior à nossa, sei não, acho que isso poderia quase ser-lhes um desejo – fim do mundo no sentido “extermínio humano”, afinal, nunca entendi que o planeta Terra todo conheceria o fim – apenas estaria livre da presença humana - como diria o grande cantor, compositor, linguista e filósofo baiano, "se ele não aguenta mais as pulgas, se livra delas num sacolejo".
E, afinal de contas, não precisamos de nenhum fenômeno além das nossas próprias atitudes para gerar “fins de mundo”.
Júlio César, lá  pela metade do século I a.C., comandando exércitos romanos na tentativa de conquistar a Gália,  proporcionou a morte de 3 milhões de pessoas. Foi o fim do mundo para os gauleses.
Entre os séculos XI e XIII, das Cruzadas às estripulias de Genghis Khan, quase 40 milhões de muçulmanos morreram no mundo islâmico à Oriente. Para eles, fim do mundo.
Quantos nativos americanos, de Norte a Sul, morreram com a invasão e conquista europeia do continente? Dizem entre 50 e 100 milhões. Cadê os astecas? Cadê os maias, da tal profecia? Para eles, o mundo acabou bem antes!!
Das diferentes etnias e nações africanas, como calcular a quantidade de atacados, violentados, sequestrados, seviciados por obra da crueldade eurocentrista? Fim de mundo para eles, e especialmente para os que vieram para ser escravizados na América, mortos no mar, mortos em terra, mortos em tronco, mortos de fome, mortos doentes.
E o holocausto armênio pelos turcos, em plena 1ª Guerra Mundial? Fim do mundo até hoje para os herdeiros, pois o massacre de quase 2 milhões de armênios ainda não foi reconhecido pelos turcos.
Por sinal, e os 10 a 20 milhões de mortos da Primeira Guerra Mundial? Aquilo foi um fim de mundo!!!
E as 30 ou 40 milhões de mortes atribuídas ao regime stalinista, contra os “inimigos internos” do regime? Que fim de mundo!
Depois, 6 milhões de judeus caçados e exterminados na Alemanha pela mentalidade doentia de um homem, pela sua notável oratória e pelo medo e rancor que inspirou em outros milhões? Mais um holocausto, mais um fim de mundo!
Segunda Guerra Mundial, não nos esqueçamos: tem quem fale em 60 milhões de mortos. É ou não é o fim do mundo?
Indispensável falar de Hiroshima e Nagazáki: o quê pensou quem viu e sobreviveu àquilo?? Quase 200 mil mortos no tempo de se piscar os olhos duas vezes...
Holocausto cambojano, mais 8 milhões de mortos.
Guerra do Vietnã, 6 milhões de vietnamitas e 500 mil estadunidenses.
Sem falar de católicos contra huguenotes na França, belgas no Congo, franceses na Argélia, Revolução Cultural, regimes militares nas Américas Central e do Sul, hutus contra tutsis em Ruanda... E na China, 30 milhões com Al Lushan, dezenas de milhões em manchus contra mings, outros tantos na guerra do ópio...

Sem asteroide. Sem terremoto. Sem tsnuami, desabamentos, nevascas, tempestades, maremotos. Só pela ação humana.
Como disse dona morte, “constantemente superestimo e subestimo a raça humana (...) raras vezes simplesmente a estimo”.
Alguém aí ainda quer falar de fim de mundo?

20/10/2012

RESENHA: "Eu sou o Mensageiro" ("The Messenger"), Markus Zusak - leitura inédita.

Devo algumas para este espaço, mas tenho pacientemente esperado pessoas lerem alguns títulos antes de falar sobre eles. Mas deste, simplesmente não resisti. Não esperarei ninguém!

Conheci  Markus Zusak como autor um tanto com má vontade. Um dia tomei nas mãos "A Menina que Roubava Livros" ("The Book Thief") meio que de nariz torto, sentindo um cheiro de mero best-seller (não na definição de vender muito, que nem é problema, mas na de ser escrito primordialmente para vender muito). Mas aí, com duas páginas, a maravilhosa... 

Péraí... Não... "A Menina..." tem que ficar para outra vez, depois de uma releitura; só posso dizer que chorei, e que pelo autor decidi ler também "Eu sou o Mensageiro", mesmo com esse título religioso-místico-esotérico. E, pra começar, com a edição na mão, vem a informação que a obra é anterior à "A menina..." Começo a ler e me incomodo com a tradução (cheia de gírias, tentando ser informal, mas que para mim não funcionou - e sem críticas ao tradutor, porque vou lá eu saber o que ele pretendeu fazer ao ver os originais!), com a maneira meio cinematográfica-hollywoodiana da história começar... Veio a impressão de que, apesar de "A menina..." - que efetivamente virou um grande best-seller, mas não me pareceu escrito com essa principal intenção -, na verdade Zusak sonhava mesmo em ser (usando um termo hispanohablante) best-sellerista. 

Mas a leitura, mesmo com algumas técnicas de best-seller (o início, a tradução, os capítulos curtos, o acabamento da edição) não era típica de best-seller. A ótima narração de Zusak vai nos carregando adiante não pela expectativa, mas pela fluência, pela naturalidade e, em alguns momentos, por nos atiçar na emoção. E de maneira até banal, comum.

Pois é, comum. Ora, e o que temos de comum??? Somos todos comuns - ou não; se não, então somos comuns, pois tão parecidos por sermos incomuns.


E “Eu sou o mensageiro” trata de um jovem comum. Um jovem ocidentalizado comum, filho de uma família trabalhadora comum, com uma vida comum. Daqueles que sentem uma frustração irrevelada com a própria vida, posto que tem que vivê-la no que tem de rotineira -  isso não é comum?? -, mas vez por outra pensa no que poderia ter sido ou, mais simplesmente, pensa no que não é - quer mais comum que isso?

Ed Kennedy até se compara com Bob Dylan, Salvador Dalí e Joana D´Arc na mesma idade que ele: que feitos espetaculares já tinham produzido aos 19 anos!! Ele, simplesmente um motorista de táxi que mentiu para a idade para começar a trabalhar, ganhando o suficiente pra tocar aquela rotina lá, seguir seu cotidiano, bater seu carteado inofensivo com os amigos que, bem... Amigos, dois pra serem por ele criticados e uma que ele não "amigava", mas sim, amava.

Acontece que a história trata do que Ed Kennedy foi posto para fazer. E, mesmo tão comum, tão simples, tendo por recompensas o abraço de uma criança, meia-dúzia de sorrisos, calorosos apertos de mãos e alguns olhares, os feitos de Ed Kennedy nada perdem para os de Mr. Zimmerman, Dalí e Joana D´Arc. A prova de que, como disse Maiakóvsky ("Confusão de poesia e luz, / chamas por toda a parte. / Se o sol se cansa / e a noite lenta / quer ir pra cama, /marmota sonolenta, / eu, de repente, / inflamo a minha flama / e o dia fulge novamente. / Brilhar para sempre, / brilhar como um farol, / brilhar com brilho eterno") gente é pra brilhar. Acontece que às vezes os mais ofuscantes brilhos não são públicos nem para exibição; são apenas para conhecer e se autoconhecer. Humanamente, só enxerga - sem se ofuscar! - o brilho quem quer com humanos olhos observar.

Assim como já acontecera com “A menina...”, a vontade ao final da leitura (bom final, mas que particularmente me frustrou, assim como me frustrou “Desconstruindo Harry”, filme de Woody Allen, mas isso pouquíssimos entenderão, se alguém entender...) foi a de levantar e bater palmas, de olhos marejados.

27/08/2012

Mais coisa velha...

Líquido Cardíaco

Dor do meio
dessangra
machuca
torna vazio
insípido
inconsciente
verdadeiro precipício
a queda
o fim
vida
despedida
sem sim, senão
só, não.

21/08/2012

Não é verdade, é hipótese; não é metafísico, é puramente material...


Caos sem caos


Se o Universo é regido por rigorosas leis matemáticas, inclusive nos seus constantes movimentos de contração e expansão, então as rotinas repetem-se ad infinitum, pois a exatidão das variantes levariam à precisa repetição: simetria divina (???)
Em outras palavras, o que você vive agora pode já ter vivido milhões de vezes, e ainda viverá outras incontáveis. Portanto, eu vou escrever e você vai ler isto aqui infinitas vezes.

09/08/2012

Ainda ouço...

... a água correndo. É um fiozinho mínimo, estreitando... Deve ser mania, minha, esperança, a minha... Mas ouço... Ouço mesmo!!

O fio d´água
qual caos:
contração, expansão, 
volume e escassez, 
volume ou escassez?

Condição pelo livre-arbítrio,
entre volume ou escassez.
Mas fica pleno o risco
de arbitrar na costumeira escassez.

Em conta-gotas,
não há gotas que bastem.
Por isso, portanto, "ergo", 
da intermitência à perenidade,
perene escassez, paraíso para
a proliferação da ignorância.

Vocês e eu,
nós e aqueles,
àqueles não há porquê
pois resta manter,
qual caos,
o fio d´água.

25/07/2012

PELO DIA

Como hoje foi o dia do escritor, repito aqui uma postagem de texto antigo, no qual a rigor revela-se a frustração por não ter conseguido efetivamente me tornar um - faltou e falta capacidade, mesmo, apesar de todos os experimentos...


Quando elas não valem nada

Palavra por palavra
a minha não vale nada.

Palavras são meros instantes,
não podem ser nada além
de fruição momentânea quando não
repercutem em atos
nem em fatos.

Palavra tantas vezes é receio,
receio de viver. Vida 
na complexidade dos atos,
mas atos nem sempre são
repercussão de palavras.

Porque palavras se vão com o vento,
com a brisa espessa que assusta o amor.
Diluem-se no líquido sagrado da suposta alma,
num banho de lágrimas...

Tudo quase para sempre assim será
e o que ainda não pode ser dedica-se
a ludibriar o passo tranqüilo de quem
um dia imaginou-se simples mortal.

Mas mortal é aquele que vive. E 
viver é a complexidade dos atos - ou fatos -,
não das palavras. Palavras traduzem existir.
E, se por falsas,
se por retratistas imediatas,
palavras não são vida; de simples mortal,
torno-me característica passiva da existência.

Existindo
para poder, com ou sem palavras, 
um dia aprender a viver.

14/07/2012

ENQUANTO ISSO, NUM DISTANTE MÊS DE JULHO, 20 ANOS ATRÁS...

O Mesmo Lugar

As crianças sangram
carregando as pedras da pirâmide;
elas não podem se cansar, 
é uma poção de suor e sangue.

Falta o catalisador da lágrima - 
mas elas não podem chorar,
elas não devem gritar, 
valem seus suspiros e olhos fechados.

Nunca ouviram falar em liberdade
pois,
se ouvissem,
as convenceriam que são livres
tanto quanto peixes num aquário.

Os dias surgiam
cada noite caía,
como rochas em telhas de vidro.
Silêncio absoluto, sem gemidos,
sem murmúrios.

Estão cegas, mudas, surdas,
mas sabem tão bem o que acontece,
embora não façam ideia do que acontecerá
na velha sempre nova aurora.

E o mundo as conhece bem
ainda que finja não vê-las!,
porque nada pode ser maior
que a piedade de si mesmo.

17/06/2012

Mais uma que já completou a maioridade...

BLECAUTE

De olhos fechados
meço meus passos
tendo o caminho na mente
e o passado aos pés.

Sirvo-me do tato
e sei o que toco.
Sigo sem medo e
não vou esquecer o caminho.
Sei que é difícil sozinho,
mas não há mais como errar.

Sei que não sei que
não enxergo por onde vou.
Mas basta-me ainda a coerência,
Para reconhecer o destino único.

01/06/2012

DIA E NOITE

Tentando segurar areia
com as mãos, ou
semeando no arenito,
tranço 
as mãos
às costas
enquanto o tão próximo horizonte
mergulha em bruma...

A razão das queixas
jaz perdida, pois
um dia o lume brilhou
e desanuveceu a dúvida:
só se discute a forma
quando houver uma certeira
busca de conteúdo.

Perdidas as duas,
resta insistir com as mãos atadas,
o nó na garganta, 
o marear dos olhos.
Até que uma epifania coletiva
possa rasgar um espontâneo sorriso.

31/05/2012

Em consequência dos dias de hoje...

Indiscutivelmente há um tom cético ou desencantado no que escorre pelas linhas. Mas é o que depreendo do que vejo todos os dias (e noites), infelizmente... 

Viver
entre dois extremos
não define a verdade dialética
apenas impõe
o trânsito visceralmente sentido
a real capacidade de se adaptar -
em poucos minutos -
do dito inferno sabidamente construído
às penas da aparente falsa calmaria limbacenta.

Mais cruel é a pérfida, dura constatação
que quaisquer ambos os lados
caminham ao mesmo:
um ponto cegueiro e sem volta
da falta de consciência
da indiferença
mudez que não faz contestar.
da surdez para...
Aceitar!

25/05/2012

Consolidando (ou não??) divagações...

Cada passo em falso
é um risco fácil
de cair novamente
onde nunca se saiu.
Como cachorro atrás do rabo -
tautologia
e sofismos -, acendemos
a pira sagrada,
para onde ascendemos
à tão decantada
ignorância suavizada.

Mas perdemos a vez...
Seja ao abrir do primeiro livro,
estrear no erguer da mão,
desnaturalizar um pensamento,
barrar o senso comum:  com
qualquer disso,
perdemos a vez...

Perdemos a chance,
só para saber que,
na verdade,
não a queríamos.
E, na realidade,
apenas sonhamos com um retorno,
comprovando
o quanto somos infelizes -
e minimamente sensatos!

18/05/2012

Apenas para não deixar esfriar...

Reflexões

Diluindo, diluindo,
destilando meu desespero.

Acordo com os mesmos
reflexos no rosto,
luz da chama fraca e
dos medos que movem o moinho,
dos ventos que giram o destino e
dos dias que não acabam mais.

Derivados, derivados,
dependendo dos meus fracassos.

Repouso sem as cotidianas
marcas nas mãos,
tremor do frio intenso e
das certezas que paralisam o motor,
da calmaria que reproduz o dia-a-dia e
das noites que se encurtam mais.

Passo, passam,
vão, vou,
quem pára para pensar?
Ninguém quer ver
o que só os cegos não vêem
(será o pior cego aquele que não quer ver?)

Passei, passado,
cheguei, chegado,
não paro pra pensar e
não quero ver
o que os cegos não vêem
(serei o pior dos cegos?)

Claro ou escuro,
já não há mais diferença
quando a cegueira é espontânea,
reflexo de nossa omissão.

Reflexo do (no) meu rosto
todas as noites e manhãs.

10/04/2012

Diminuindo o débito: nova resenha - Saramago e as "Pequenas Memórias"

Estou devendo 3 (quase 4...), sendo 2 releituras. A mais recente é obra recém-lida, começo por ela.

Dizia eu, há pouco menos de dois anos, que José Saramago era o maior escritor vivo da língua portuguesa. Por termos perdido o autor, evidente que não posso mais dizer isso. E fico sinceramente em dúvidas para elevá-lo à condição de maior escritor da língua portuguesa (a despeito de outros "figurões" incontestes - que eu contesto) por conta das suas últimas obras que li, que me soaram como obrigação, como cumprimento de contrato, enfim. "Ensaio sobre a Lucidez" (cuja história dava sequência à história do magistral "Ensaio Sobre a Cegueira") e as "Intermitências da Morte" permitiram-me ainda ver o lume do mágico escritor e também, evidentemente, seu particular estilo; mas ambas me soaram como repetições dos temas e fórmulas narrativas que o consagraram - frustrantes, portanto, em virtude da expectativa que se tem ao ler um Saramago. Assim, desinteressei-me por seus últimos lançamentos, embora reste-me ainda o antigo (1953) e até pouco inédito livro "Clarabóia" (que não deve mais levar acento, mas eu teimo em mantê-los) para ponderar.
Por isso, foi grande a satisfação com a leitura de "Pequenas Memórias". É de suas últimas publicações,  de 2006, e não se trata de um romance. Tampouco podemos considerá-la uma autobiografia, mas sim "pequenas memórias", como ele mesmo as trata, de sua tenra infância e início de adolescência (palavra, aliás, ausente da obra). Delicioso livro que nos revela uma parte da construção de Saramago (desde o próprio sobrenome, inclusive), parte das vivências que o tornaram quem foi e parte do que o permitiu escrever suas fantásticas obras. No livro, não só lemos passagens da vida do autor como também percebemos várias das suas características de escritor: os longos parágrafos, a inserção particular dos seus diálogos, neste não exclusivo caso um absoluto desrespeito à cronologia, e, como não raramente em outras obras, passagens que corrigem trechos anteriores com as devidas escusas e as explicações dos equívocos (e imagino que "ai" do editor que não quisesse manter o texto integral!) Mas interessantíssimo mesmo é poder, com tal leitura,  perceber um ser humano tão comum por trás de um monumento da literatura, a admissão de erros, de impropriedades e de atitudes nada nobres admitidas por um senhor já com 80 anos que se mostrou, não bastasse tudo, dotado de uma memória prodigiosa. E tão curioso poder notar, como não é raro para qualquer um de nós, singelas e mínimas semelhanças no modo de pensar e agir - o que nos faz instantânea e  momentaneamente sentir um ridículo orgulho.
Deu saudades... Saudades de ler as grandes obras de Saramago e profundo interesse de ler o que ainda não li, desde seus diários até os romances que ainda não tive em mãos.

Para lembrar de Saramago, para combater as saudades, revejo e insiro aqui a adorável animação de sua única obra admitidamente infantil, "A Maior Flor do Mundo", com narração dele próprio.


(especiais agradecimentos ao amigo Eduardo Januzzi, que me emprestou o livro, e também para minha sobrinha, Marina Prado, que me presenteou com o endereço deste vídeo já faz algum tempo).

25/03/2012

Mais uma resenha: O Caderno de Sinclair - Releitura

Conhecido por obras indiscutíveis como Demian, Sidarta, O Lobo da Estepe, além de ter escrito tantas outras, Hermann Hesse só ganhou grande reconhecimento após o final da Segunda Guerra Mundial. Isso porque, crítico do militarismo e da guerra em si, o auge da sua maturidade como autor veio justamente com a dor da derrota alemã na Primeira Guerra, seguida da ascensão nazista. Com a nova derrota alemã e a queda do nazismo, sua obra, baseada em boa medida na náusea da guerra (aparentemente oriunda do louvor patriótico da Guerra Franco-Prussiana cuja vitória patriótica lhe empurraram, ainda fresca, goela abaixo na escola, mas também e principalmente pela vivência da Primeira Guerra), serviu como bastião à uma Alemanha horrorizada com os próprios crimes. A impressão que se tem é que, para apagar ou borrar o absurdo nazista, o Prêmio Goethe concedido ao autor já em 1946 serviu para mostrar que os alemães queriam um futuro e uma imagem diferente.
Mas indiferente do reconhecimento, Hesse sempre imprimiu uma linha filosófica distinta, quase própria, temperada pela educação familiar religiosa, por este horror ao militarismo, do ceticismo em relação à política e aos homens e pelo amor à arte de escrever - do romance aos poemas, passando pelos ensaios e crônicas.
Não apreciei a obra da primeira vez que a li, faz já por volta de duas décadas. Creio que não a compreendi muito bem e por isso tive a leitura atravancada, arrastada, levada até o fim como tarefa, como missão do leitor assíduo, desregrado e confuso que sempre fui. Então, decidi relê-la, mas me surpreendi negativamente com a inocência, a imaturidade e o grotesco dos ensaios escolhidos para compor a obra O Caderno de Sinclair, publicado mo início da década de 20, escritos sob o pseudônimo de Emil Sinclair em periódicos da imprensa alemã do final da década 1910-1920. Mistura de uma certa misantropia misticista com conclusões adolescentes, os ensaios me soaram como aqueles textos que os aspirantes à literatura escrevem no início da adolescência e que guardam com estima e carinho e, anos depois, adulto feito, vida corrida e experimentada, ruborizam-se só de imaginar que algum outro possa ler. Ainda mais deprimente, na edição lida (aparentemente a 1ª Edição da Editora Record, 1984), é ler o prefácio do autor, do ano de 1962 - quando teria mais de 80 anos.
Incluiu em seus ensaios um extremo pessimismo com o futuro alemão e europeu, sua visão própria - e absurda e exageradamente imatura - das virtudes e vícios humanos, sua ânsia pelo isolamento... Vê-se, também, o seu extremo antimilitarismo e seu amor pela arte escrita, mas o tratamento dado aos seus textos, nessa obra, beiram a infantilidade.
Aos fãs, pelo apego;  aos demais, por curiosidade, lendo entre suspiros de impaciência e gestos de negação.